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O final de Monk

 "O dia chegando ao fim e as pessoas incapazes de continuar a fugir da perturbadora sensação de inutilidade que foi crescendo aos poucos durante o dia, sabendo que hão de se sentir melhor quando acordarem e for dia de novo, mas sabendo também que cada dia conduz a essa sensação de tranquilo isolamento. Não faz diferença alguma se os pratos foram levados e empilhados armário ou se a pia está cheia de pratos sujos, porque todos esses detalhes - as roupas penduradas no armário, os lençóis esticados na cama - contam a mesma história: uma história na qual elas vão até a janela e olham as ruas molhadas de chuva, imaginando quantas outras pessoas estarão olhando a rua assim, pessoas que desejam a chegada da segunda-feira, porque os dias da semana têm um propósito que se esvai no fim de semana, quando só existem a lavanderia e os jornais. E sabendo ainda que esses pensamentos não representam nenhuma espécie de revelação, pois e les próprios são agora parte da mesma rotina de desespero sup...

Sobre intenção e turning points

Frente a todas as mudanças pelas quais passei no último ano, não pude deixar de me questionar várias vezes para onde eu estava indo, afinal. Já fazem alguns anos que tenho a sensação de que as boas oportunidades da minha vida "simplesmente aconteceram", aquela coisa de estar no lugar certo na hora certa. A possibilidade de que houvesse intenção nas minhas atitudes nunca passou pela minha cabeça. Como esse poderia ser o caso se eu não sabia quem eu era, o que eu gostaria de fazer, qual era minha missão, meus objetivos, onde me via em cinco ou dez anos? O Sinergia apareceu na minha vida porque me mudei para uma casa e minha colega de quarto me apresentou para o Pedro. A Solstício aconteceu porque ela já era parceira do Sinergia e oferecia vagas de estágio de verão de qualquer forma. A GE aconteceu de forma tão repentina que nem sei o que pensar. Sequer sabia que eles tinham uma operação em Campinas que pudesse incorporar um estágio em engenharia ambiental. A ABiogás aconteceu p...

Do chão de fábrica para o escritório empresarial

Eram seis e meia da manhã e, ainda que estivéssemos no verão, o carro à etanol deu duas falhadas antes de ligar e dispersar o orvalho formado na madrugada. Música ligada, sol nascendo, caminho do padre até chegar na fábrica. Trabalhar na GE foi meu sonho por algum tempo e estagiar na GEVISA está sendo o aprendizado de uma vida. Aqui consigo aplicar praticamente todo o conteúdo da grade curricular da minha graduação, é uma grande empresa, o salário cai no dia primeiro e no dia quinze faça chuva e faça sol, tenho benefícios. As pessoas são ótimas e acredito que faço um trabalho decente com a equipe de EHS, mas sempre tem uma vozinha dentro de mim que cutuca meu interesse no mercado de energia e diz "Marcela, isso não é suficiente". Quando passo no DFIG da baia 2 e vejo as fotos dos aerogeradores que receberão os rotores sendo produzidos ali, eu suspiro e dou uma parada de dois segundos. No segundo ano da minha graduação participei da fundação de uma organização estudantil q...

Retrovisor

O sol me acorda ao invadir a janela de três metros que fica colada à minha cama. Claro que, morando na terra da garoa, os dias cinzas têm sido bem frequentes. De qualquer forma, um botãozinho no meu cérebro aciona meu corpo todos os dias cerca de quarenta minutos antes do despertador do meu celular tocar, então faça garoa ou faça sol, eu estarei em pé às sete da manhã. São Paulo. Nunca te quis, ainda não acredito totalmente que te quero. Quem me conhece a algum tempo sabe do meu desgosto em considerar essa megalópole nos meus planos de mudança e de carreira, mas aqui estou. No meio do caminho surge uma oportunidade e a gente se coloca à mercê da fé de que algo novo será melhor. Olho para trás e meu péssimo histórico com mudanças e, ainda que estivesse animada pelo desafio profissional, a ideia de ir para uma cidade que sempre me desagradou dava medo. Ficar sozinha, me perder, não me encaixar no caos e na energia que São Paulo tem. Contudo, São Paulo foi a melhor mudança dos meus vi...

Você vê estrelas no Rio?

Na despedida era como se eu estivesse voltando de férias. Já sentia saudade de algo que sempre soube que seria efêmero, o que não diminuía em nada minha tristeza. Espontaneidade e falta de planejamento nunca foram do meu feitio, mas os dois últimos dias mostraram o que eu estava perdendo agindo de forma tão segura o tempo todo.

Migs, música e... gelo.

Ouvir rádio me irrita, a impressão que fica é que aparentemente não existem mais boas músicas. É claro que é prepotência, é claro que é a opinião de alguém que ouve muito sua playlist dos anos 80 e não sabe se desapegar dela. Dentro do carro, em uma estação qualquer, começa a tocar uma música cantada por uma voz feminina tão doce que te enjoa depois de 30 segundos. Ela diz que um joelho ralado doi mais que um coração partido ou algo do tipo. Rabugenta com a escolha do Uber, solto um "Brega". Músicas sobre coração partido existem aos montes, é difícil ser inovador ao falar de algo que o ser humano tenta ter maior compreensão desde... sempre? Eu não sei o que é ter um coração partido do jeito que as vozes doces cantam. Já passei por rejeição, por amores platônicos, amores não-platônicos que terminaram de um jeito estranho, mas eu nunca fiquei sem dormir, sem comer. Não lembro sequer de ter chorado. E não acho que isso diminua meus amores, mas com certeza enaltece meus s...

O tempo já é um borrão

Será que eu conseguiria contar com facilidade sobre o que somos e tudo o que aconteceu conosco? Em uma tentativa frívola de testar minha memória, me esforço para lembrar os pontos marcantes de uma relação que já existe a mais de uma década. Os últimos seis anos em uma graduação de exatas me forçam a colocar as memórias em itens numerados por ordem cronológica. Rio sozinha dessa mania. Mas, no fim das contas, nem sei mais ao certo a importância dos nossos obstáculos, dos nossos diálogos profundos, dos momentos fáceis e dos momentos difíceis. No alto dos meus 25 anos, me vejo engolida em uma rotina que não me dá espaço para nada que não seja cotidiano. Velhas amizades, memórias antigas, reflexões, autorreflexões... Tudo isso perdido na angústia do sentir que estou sempre atrasada ou em trânsito. Se falta emoção e se faltam lembranças, o que fica é a impressão do que uma amizade deveria ser. Podemos dar todo o novo significado que quisermos, a verdade é que não é mais amizade. Insisti...