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Sobre intenção e turning points

Frente a todas as mudanças pelas quais passei no último ano, não pude deixar de me questionar várias vezes para onde eu estava indo, afinal. Já fazem alguns anos que tenho a sensação de que as boas oportunidades da minha vida "simplesmente aconteceram", aquela coisa de estar no lugar certo na hora certa. A possibilidade de que houvesse intenção nas minhas atitudes nunca passou pela minha cabeça. Como esse poderia ser o caso se eu não sabia quem eu era, o que eu gostaria de fazer, qual era minha missão, meus objetivos, onde me via em cinco ou dez anos? O Sinergia apareceu na minha vida porque me mudei para uma casa e minha colega de quarto me apresentou para o Pedro. A Solstício aconteceu porque ela já era parceira do Sinergia e oferecia vagas de estágio de verão de qualquer forma. A GE aconteceu de forma tão repentina que nem sei o que pensar. Sequer sabia que eles tinham uma operação em Campinas que pudesse incorporar um estágio em engenharia ambiental. A ABiogás aconteceu porque o meu orientador de iniciação científica calhou de postar a vaga no e-mail de alunos da faculdade e naquele dia eu tive saco para escrever um currículo. É assim que eu penso. 
Ou pensava. 
Achei que muitos dos efeitos que os eventos traumáticos da minha vida causaram em mim lá em 2011 tinham sido bem resolvidos na primeira rodada de terapias em 2013. Já não era algo que surgia em crises de ansiedade aqui e acolá como antes, então de alguma forma a versão de pessoa que me tornei foi interpretada como simplesmente a forma como eu seria a partir dali e que ela era melhor. É interessante notar, agora que escrevo essas palavras, como criei o hábito em separar minha vida entre antes e depois de 2011. E somente agora eu percebo (agora que pequenos detalhes no meu comportamento se tornaram obstáculos pulsantes no cotidiano) que há muita coisa não resolvida. Não com meu avô, não com meu irmão, não com meus pais ou meus veteranos sádicos de Araras, mas comigo mesma. Depois de seis anos voltei para uma sala de terapia e em uma sessão o meu mundo caiu. Aquela sensação esmagadora de chegada de um insight avassalador que estava bem na sua frente e eu, sozinha, não consegui ver. Aquele alívio incrível de ter descoberto meu problema seguido pela ansiedade do "Ok, mas e agora, o que eu faço com isso?".
A cobrança continua ali, os hábitos de se duvidar e se subestimar continuam ali e agora eu alcancei uma parede em que não tem mais saída. Não tem estágio que me faça, convenientemente, a voltar a morar com meus pais (e, por consequência, me retorna para meu lugar seguro), o namorado voltou a morar longe e não está ali para evitar a crise antes que ela aconteça e não tem mais faculdade para usar como bode expiatório para minha dificuldade de lidar com críticas e avaliações. Não tem mais para onde fugir. E, pela primeira vez, eu não quero fugir. Eu quero ver o que acontece quando eu não fujo. 
E então veio. Veio esse sentimento de ousadia e euforia que me deu outro olhar para as tais oportunidades da minha vida. Eu poderia ter recusado o convite do Pedro, poderia ter transpassado uma imagem diferente para a Tamara e sequer ter entrado em contato com o que seria o Sinergia. A vaga na Solstício era, inicialmente, para Marketing. Por que diabos uma estudante de segundo ano em engenharia ambiental que nunca estudou marketing aceitaria a vaga? E eu aceitei. Fiquei lá dois anos e descobri todo um outro conjunto de habilidades que eu tinha. Eu apostei na GE, a voltar para Campinas e trabalhar num ambiente fabril, masculino e intenso mesmo tendo todos os medos e dúvidas do mundo dentro de mim. Eu larguei mão de uma multinacional com um rol de benefícios e do calor da minha casa para ir para São Paulo, uma cidade que eu nunca (e destaco, porque precisa ser enfático: NUNCA) quis morar, para me concentrar no que eu realmente mais gosto: o mercado de energia. Tem intenção ali, tem potencial ali. Tem algo nisso tudo que não estou levando a sério. Tem créditos que precisam ser dados e eu, por falta de confiança, decidi simplesmente chamá-los de "sorte".
Esse parece mais um desabafo para mim mesma do que qualquer coisa, mas na verdade isso tudo é para outra pessoa. Isso não será curto, então prepare-se.
Esse turbilhão de ideias aconteceu em um pequeno espaço de tempo, foi coisa de um ou dois dias. Era bem começo de Março de 2020, ainda não havia pandemia e isolamento social e as coisas estavam intensas. Teve despedida, morar sozinha pela primeira vez em uma cidade ainda estranha, terapia, trabalho com chefe nova, muitas reflexões. Isso entre domingo e terça. Foram eventos com carga emocional pesada e que com certeza foram responsáveis por duas rugas que criei perto dos olhos. Com exceção do raio de euforia causado pelo insight na sala com a dra. Djanira, estava difícil manter um senso de positividade. E aqui entra a "outra pessoa". Você mesmo, Eliseu. 
Provavelmente o único leitor desse blog há muito esquecido (até por mim, em alguns momentos).
Não preciso gastar mais linhas desse que provavelmente será o texto mais longo deste blog, para dizer todas as turbulências dos nossos dezesseis anos de amizade. Mas vale a pena citar que sim, são dezesseis anos. Já temos idade para que, de agora até o resto de nossas vidas, tenhamos mais tempo de vivência um com o outro do que sem. E vale dizer que parte da beleza desse relacionamento por horas excêntrico que nós temos, é que momentos que parecem levianos ou mesmo bobos acabam marcando a gente de forma que só percebemos um tempo depois. Seja a minha declaração infantil, porém sincera, de que você provavelmente seria minha alma gêmea quando tínhamos catorze anos ou do momento bêbado no sofá de casa (talvez sincero, talvez não) em que compartilhamos um crush bizarro pelo cantor Daniel enquanto tocava "Minha estrela perdida" no fundo, eu adoro lembrar essas pequenas coisas que me dão uma sensação de pertencimento muito grande. E, claro, existe o outro lado da moeda. Os momentos intensos demais para qualquer adolescente passar, os dramas que no embolado de lágrimas, risos e sentimentos exorbitantes são apenas um borrão na minha mente e sua presença constante em muitos dos eventos mais importantes da minha vida.
Aquela terça-feira, 03 de Março de 2020, parecia ser apenas um dia difícil consolado pela visita de um amigo. Mas no frigir dos ovos (meu Deus, eu realmente tenho 70 anos), aquela terça foi um turning point. Não só pela terapia, não porque foi o primeiro dia que cheguei em casa e não chorei, mas porque você estava lá para me lembrar de quem eu era e de quem eu queria ser. Somente você poderia fazer aquilo, Eliseu. Só você me conhece a tempo suficiente e passou por merdas o suficiente comigo para me enxergar de um jeito cru e sincero. Eu realmente acho que nem meus pais ou o Boscolo conseguiriam isso. Só você conseguiria me fazer voltar no tempo, para uma época sem traumas e com toda a ingenuidade de quem vê o mundo como uma coisa incrível a ser descoberta. Me lembrar de que eu era a pessoa que dizia que iria embora, de que Campinas não me bastava, de que isso não era assustador. Lembrar, quando me contou sobre o dia do velório do meu irmão, que houve uma época em que pedir ajuda, aceitar que não suporta a vida sozinha e se abrir para o conforto de um abraço não era fraqueza. 
Ainda há muito a ser feito aqui dentro de mim, mas eu nunca vou conseguir agradecer o bastante pelo que você fez por mim no dia 03 de Março de 2020. Você foi o melhor amigo que eu poderia ter e me ajudou a trazer de volta a intenção na minha vida e até mesmo um pouquinho de autoconfiança. 
Hoje você faz vinte e sete anos e, de presente, te dou o que você me pediu a dez dias atrás: um texto no blog. Te dou também um coração aberto de amor e carinho já que não podemos nos ver pessoalmente. Eu torço pela sua felicidade, pelo seu sucesso, pela sua satisfação, pelo seu bem-estar. Torço para que você encontre o que parece estar sempre buscando, para que você acredite que é a pessoa incrível que eu e todos ao seu redor vêem. Sou imensamente grata pelo fato de que em algum momento a gente sentiu que valia a pena se acertar e voltar a conversar. É o velho "eu até poderia viver sem você, eu só não quero". E isso, meu caro, é minha intenção de manter essa amizade. 
Espero que seu dia seja ótimo dentro do possível do isolamento social. Que você coma banoffee e assista Friends. 
Feliz aniversário. 
Te amo muito. 

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