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O tempo já é um borrão

Será que eu conseguiria contar com facilidade sobre o que somos e tudo o que aconteceu conosco? Em uma tentativa frívola de testar minha memória, me esforço para lembrar os pontos marcantes de uma relação que já existe a mais de uma década. Os últimos seis anos em uma graduação de exatas me forçam a colocar as memórias em itens numerados por ordem cronológica. Rio sozinha dessa mania.

Mas, no fim das contas, nem sei mais ao certo a importância dos nossos obstáculos, dos nossos diálogos profundos, dos momentos fáceis e dos momentos difíceis. No alto dos meus 25 anos, me vejo engolida em uma rotina que não me dá espaço para nada que não seja cotidiano. Velhas amizades, memórias antigas, reflexões, autorreflexões... Tudo isso perdido na angústia do sentir que estou sempre atrasada ou em trânsito.

Se falta emoção e se faltam lembranças, o que fica é a impressão do que uma amizade deveria ser. Podemos dar todo o novo significado que quisermos, a verdade é que não é mais amizade. Insistimos na ideia de uma amizade, no sentimento longínquo de saudade de algo que não volta mais. E porra, somos jovens ainda.

Somos jovens e o tempo já é um borrão.

Insisto porque em algum momento meus dias eram minuciosamente compartilhados com você. Uma hora, uma manhã, uma tarde toda era pouco tempo para conversarmos. Sinto falta disso. Às vezes me pergunto para onde foram tantos assuntos e me vejo uma pessoa desinteressante. Sinceramente não sei mais sequer conversar comigo mesma.

E agora? É de você ou de mim que sinto falta? É do que tínhamos ou de quem éramos? Aparece um dia desses, nem que se for por uma hora, e através de uma daquelas conversas entranháveis olhando o céu, me responda:

Como matamos a saudade de nós mesmos?


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