"O dia chegando ao fim e as pessoas incapazes de continuar a fugir da perturbadora sensação de inutilidade que foi crescendo aos poucos durante o dia, sabendo que hão de se sentir melhor quando acordarem e for dia de novo, mas sabendo também que cada dia conduz a essa sensação de tranquilo isolamento. Não faz diferença alguma se os pratos foram levados e empilhados armário ou se a pia está cheia de pratos sujos, porque todos esses detalhes - as roupas penduradas no armário, os lençóis esticados na cama - contam a mesma história: uma história na qual elas vão até a janela e olham as ruas molhadas de chuva, imaginando quantas outras pessoas estarão olhando a rua assim, pessoas que desejam a chegada da segunda-feira, porque os dias da semana têm um propósito que se esvai no fim de semana, quando só existem a lavanderia e os jornais. E sabendo ainda que esses pensamentos não representam nenhuma espécie de revelação, pois eles próprios são agora parte da mesma rotina de desespero suportável, um sumário final que se dissolve, o tempo todo, no dia a dia. Uma hora do dia em que se pode lamentar tudo e nada na mesma respiração, em que o único desejo de todo solteiro é que houvesse alguém que o amasse, que pensasse nele, ainda que estivesse do outro lado do mundo. Em que uma mulher, sentindo a cidade desabar, úmida, a seu redor, ouvindo a música que vem de um rádio alheio, levanta o olhar e imagina as vidas que estão sendo vividas por trás das janelas de luzes amarelas: um homem diante de sua pia, uma família reunida em torno de um televisor, amantes cerrando cortinas, alguém sentado à sua mesa, ouvindo a mesma música no rádio, escrevendo estas palavras."
"Todo aquele jazz" - Geoff Dyer
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