Pular para o conteúdo principal

Migs, música e... gelo.

Ouvir rádio me irrita, a impressão que fica é que aparentemente não existem mais boas músicas. É claro que é prepotência, é claro que é a opinião de alguém que ouve muito sua playlist dos anos 80 e não sabe se desapegar dela.

Dentro do carro, em uma estação qualquer, começa a tocar uma música cantada por uma voz feminina tão doce que te enjoa depois de 30 segundos. Ela diz que um joelho ralado doi mais que um coração partido ou algo do tipo. Rabugenta com a escolha do Uber, solto um "Brega". Músicas sobre coração partido existem aos montes, é difícil ser inovador ao falar de algo que o ser humano tenta ter maior compreensão desde... sempre?

Eu não sei o que é ter um coração partido do jeito que as vozes doces cantam. Já passei por rejeição, por amores platônicos, amores não-platônicos que terminaram de um jeito estranho, mas eu nunca fiquei sem dormir, sem comer. Não lembro sequer de ter chorado. E não acho que isso diminua meus amores, mas com certeza enaltece meus sofrimentos. 

É, percebo agora que meus corações partidos com direito à horas deitada embaixo de um edredom como uma ameba não vieram por causa de homens. Foram decorrentes de amizades. 

Desço do carro, entro no restaurante e vários rostos conhecidos estão por ali. Barão Geraldo é um ovo. Muitas mesas de quatro pessoas agrupadas para suportar os grupos de seis, oito, doze pessoas que saíram para almoçar juntas. Perdida na muvuca, está uma mesa com duas cadeiras. Coloco minha bolsa em uma e sento na outra, acompanhada somente dos devaneios de uma canção brega. 

A garçonete pergunta se quero beber algo e peço uma tônica com gelo e limão. 

Aceno com a cabeça uma e outra pessoa que passam por mim e dão um "oi" mudo. 

Tento não pensar muito mais nas amizades quebradas quando o copo com gelo e limão chega. Imediatamente sou levada para 2007 na minha viagem de formatura da oitava série. Estou com minhas amigas almoçando e uma delas, que sempre coloca gelo em todas suas bebidas, fica fascinada com o pedaço de água congelada que veio em seu copo. Ele é grande e abstrato e ela diz que parece um galo. Com a feição séria, ela diz que quer embalar e levar o gelo de volta com ela. Todas damos risada do absurdo e eu digo "Claro, migs, porque a gente realmente vai arrumar um mini isopor para você levar esse gelo para Campinas". 

Essa é a pessoa que me apresentou o indie, o tiopês, filmes incríveis e me fez rir muitas e muitas vezes. É quem nutriu, de certa forma, minha paixão por cinema e me ensinou a garimpar posteres na locadora. Foi por muito tempo orgulhosamente chamada de minha melhor amiga e esteve ao meu lado em fatos marcantes da minha vida. 

E então, de repente, ela não estava. 

De repente não nos falamos mais, não saímos mais, não podia chamá-la quando as merdas da vida aconteciam. Dias se tornaram semanas, que se tornaram meses e sim, esses se tornaram anos. Em nenhum momento consegui reunir coragem de simplesmente perguntar o que eu tinha feito, se estava tudo bem, qual era o motivo daquele afastamento. O medo da resposta me afastou de uma das pessoas mais importantes da minha vida e isso partiu meu coração. 

Chorei, senti ciúme, escrevi cartas que nunca foram enviadas e textos que nunca foram finalizados. Cruzei com ela algumas vezes e aqueles poucos segundos acabavam com meu dia. Tentei procurar alguém que ocupasse a vaga, mas as minhas apostas eram sempre muito altas para alguém que eu acabava de conhecer. Não era justo comigo e nem com a outra pessoa.

Eventualmente o mal estar passou, mas aquela ausência fica ali me assombrando, como se me jogasse na minha cara de vez em quando até onde minha teimosia e meu orgulho podiam chegar. O quanto eles poderiam me machucar, quebrar meu coração em pedaços.

Angustiada com a saudade que chegou sem perceber, pego meu celular, meu fone de ouvido e me isolo da muvuca do restaurante. Na playlist "Meus anos 80", escolho "Don't You (Forget About Me)". Tento pensar em John Hughes, mas só consigo pensar que em algum lugar a tantos anos que já não consigo mensurar, minha melhor amiga respondeu em um jogo de perguntas que essa era a música preferida dela. 



Comentários