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Do chão de fábrica para o escritório empresarial

Eram seis e meia da manhã e, ainda que estivéssemos no verão, o carro à etanol deu duas falhadas antes de ligar e dispersar o orvalho formado na madrugada. Música ligada, sol nascendo, caminho do padre até chegar na fábrica.

Trabalhar na GE foi meu sonho por algum tempo e estagiar na GEVISA está sendo o aprendizado de uma vida. Aqui consigo aplicar praticamente todo o conteúdo da grade curricular da minha graduação, é uma grande empresa, o salário cai no dia primeiro e no dia quinze faça chuva e faça sol, tenho benefícios. As pessoas são ótimas e acredito que faço um trabalho decente com a equipe de EHS, mas sempre tem uma vozinha dentro de mim que cutuca meu interesse no mercado de energia e diz "Marcela, isso não é suficiente". Quando passo no DFIG da baia 2 e vejo as fotos dos aerogeradores que receberão os rotores sendo produzidos ali, eu suspiro e dou uma parada de dois segundos.

No segundo ano da minha graduação participei da fundação de uma organização estudantil que seria um centro de treinamento em energia. Até então meu intuito com a Engenharia Ambiental era solucionar aquilo que, na minha visão, era o maior problema do mundo: a agricultura. Com o Sinergia, descobri o mercado de energia e isso direcionou todo o resto do meu curso, das pesquisas que fiz à empresas onde procurei estágio. Não sei bem o que era, mas o tema me puxava, me instigava e me dava ânimo para ler relatórios de mil páginas, montar material didático e dar aulas sobre o tema todas as semanas.

Por isso, e por toda a indecisão acerca do futuro da fábrica frente aos problemas do business Power Conversion, decidi sair. Resolvi chamar uma reunião com a Paula e enquanto dirijo na Campinas-Monte Mor vou repassando todos os pontos que gostaria de esclarecer com ela.

A Paula é uma mulher incrível. Ela é especialista de Meio Ambiente na área de EHS, minha gestora direta. Começou na GEVISA como estagiária e lá está há quase nove anos. Seus 1,65 e calçado 34 confundem qualquer pessoa que tenha que lidar com ela na fábrica. Veja bem, ser mulher na GE Power Conversion Campinas é complicado, principalmente para nós poucas que de fato trabalhamos na fábrica. É um ambiente extremamente masculino e machista. Para mim a Paula é esforçada, assertiva, objetiva, inteligente e eficiente. Para o homem médio ela é brava, briguenta e esquentada. Afinal, onde já se viu uma ruivinha de 1,65 dizer para o torneiro mecânico da baia 9 o que fazer?

Nesse tempo que a conheço, não tenho nada além de admiração por ela. Engulo em seco pensando em ter que me despedir.

A manhã corre e logo depois do almoço, ao sentarmos embaixo da árvore do refeitório, pergunto para a Paula se ela teria um tempinho para conversar. Nós não somos o tipo de equipe que trabalha com reuniões de feedback semanais, então ela estranha o pedido e de imediato responde "Vamos lá".

Em uma sala vazia, explico todos os meus pontos enquanto meus olhos começam a lacrimejar. Ela abaixa o olhar e balança a cabeça afirmativamente. Quando nos olhamos, ambas choram. Digo que é um aviso tranquilo, que estamos apenas em Janeiro e penso em procurar algo mais para o meio do ano, afinal agora não rodam muitos processos seletivos. Queria apenas ser honesta com ela e também dar tempo dela encontrar uma outra pessoa para me substituir.

A verdade é que por um tempo, eu pensei mesmo em ficar. A Paula, a GEVISA e Campinas se tornaram um espaço seguro, uma zona de conforto. Querer mais além disso parecia ganância desnecessária. Talvez essa seja a vida, isso seja a vida. Arrumar um bom emprego em uma boa empresa, ter meu apartamento, tomar cervejas às sextas no bar do Gaúcho com o pessoal da baia 8. Não é uma vida ruim.

Mas a voz era insistente.

"Marcela, isso não é suficiente."

Uma semana depois, meu orientador de pesquisa na faculdade veiculou um e-mail com a descrição de uma vaga de estágio em São Paulo. "Associação Brasileira do Biogás". Não pensei muito, estava enviando CVs em modo automático de forma a tentar marcar algumas entrevistas e "treinar" minha performance para processos seletivos mais sérios.

Mais de um mês se passa e, enquanto discuto com o Sidney do LAC sobre a organização do armário de produtos químicos da área, um número zero-onze me liga. Celulares são proibidos na fábrica, então só consigo atender depois de três ligações perdidas, quando retorno para o mezanino de EHS. Da janela do ambiente consigo ver toda a fábrica lá embaixo. As repartições antigas do mezanino mal vedam o som, então os sinais sonoros de segurança dos guindastes e pontes rolantes são perfeitamente perceptíveis enquanto uma voz feminina muito doce me chama. "Srta Marcela? Aqui é Graziela da ABiogás". Tempo suficiente se passara para eu ter que me esforçar um pouco para lembrar o que era ABiogás. Olhei ao redor como se fosse pecado atender uma possibilidade de emprego enquanto estava dentro dos limites da GEVISA, mas continuei "Ah, claro, olá Graziela". Era vinte e um de março e a moça no telefone me chamava para uma entrevista no dia seguinte em São Paulo. Aceitei sem pensar na desculpa que daria para a Paula ou como iria até São Paulo. No momento nem passou pela minha cabeça que isso significava que existia um cenário em que eu me mudaria para São Paulo. Ao desligar o celular, olhei para baixo e encarei a fábrica. Demorou meses para eu me sentir confortável ali, me encontrar nos corredores e baias, lembrar nomes, designações, funções. Criei um vínculo afetivo forte com o pessoal da fábrica e de EHS, como a Paula bem me disse que aconteceria. Ainda assim, sem entender por que, era como se aquilo não fosse mais real. Vi a Paula atravessar a Usinagem de Tampas e Carcaças com a Mona ao seu lado. Era como se eu assistisse um filme. Aquilo tudo não era mais meu.

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