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Era para ser um exercício corporativo para o Setembro Amarelo

Hoje minha mente está pregando peças. Coincidência que seja no primeiro dia de menstruação, com hormônios à flor da pele? Provavelmente não. Apenas o lembrete mensal de que ser mulher não é fácil.

Vim de um relacionamento de oito anos que por muito tempo me fez bem, me ensinou muita coisa e contribuiu para eu me tornar a pessoa que sou hoje. Contudo, o final dessa relação veio carregada de meses de insegurança, má comunicação, dúvidas, baixa autoestima, angústia e lágrimas. Não houve briga, não houve gritaria ou desentendimentos, mas já não estávamos conectados e demorou para assumirmos que essa era a situação (um para o outro e para nós mesmos). Esse período impactou profundamente a percepção que tenho de mim mesma e em termos de como me relaciono.

É muito fácil para mim me diminuir para dar lugar ao outro. É muito fácil me colocar numa posição inferior à outra pessoa, como se eu tivesse a maior sorte do mundo de que ela tivesse me escolhido. É muito fácil esquecer um pouco de mim frente toda a atenção que eu ofereço ao outro.

Esses padrões acabaram me sufocando e sendo parte do fim do meu relacionamento com o Boscolo. Agora, com o Caíque, tenho feito um esforço racional e ativo para não me trair com meus próprios comportamentos nada saudáveis. Assim, esse texto é uma tentativa de colocar para fora todas as inseguranças e picuinhas que surgiram na minha cabeça nas últimas vinte e quatro horas antes que elas me consumam e gerem uma situação totalmente fora de proporção.

Eu estava em Florianópolis pelos últimos cinco dias, enquanto ele ficou em São Paulo após desistir de viajar para o Rio de Janeiro com a Gabriela, a ex-namorada dele (ex-namorada de doze anos de relacionamento, com quem ele ainda mora junto, divide uma cama e por quem ele claramente tem um carinho enorme). Quando voltei, eu queria vê-lo. Pensei comigo mesma que eu nunca vocalizo a minha vontade de vê-lo. É sempre ele que está me chamando, se convidando para ir em casa, planejando. Acredito que quando nosso caso começou, eu escolhi agir assim porque à época ele ainda estava com a Gabriela e a “gestão” de tempo e presença existia para ele. Ele precisava mediar o quanto ficava comigo, o quanto ficava com ela e eu joguei essa bola para ele. Mas hoje não tem mais isso. Ele falou que eu sou a namorada, eu sou a prioridade. Inclusive me senti tão feliz quando ouvi ele dizendo isso...

Enfim, percebi que não falava nada. Poderia ter falado “Sei que vou chegar tarde, mas queria te ver pelo menos para dar um abraço”, mas não falei. Ficou para ele mandar uma mensagem quando eu já havia pousado dizendo que poderia ir em casa ou eu dormir na casa dele e que ele faria um lanchinho para nós. Eu adorei, mas fiquei me questionando por que eu me seguro assim. Nesse caso, fiquei pensando “Putz, o dia que comentei que chegava à noite ele mandou uma mensagem com um carinha triste e falou que teria que esperar mais um pouco para me ver, ou seja, que não me veria no dia da minha chegada”. Isso ficou na minha cabeça e, na mentalidade de nunca incomodar, de quase nunca me ouvir antes de colocar a necessidade do outro à frente, eu fiquei calada.

Esse é a primeira coisa.

A segunda é o fato dele me dizer que precisava acordar tal horário para ir buscar a Gabriela no aeroporto. Não falei, mas me incomodou. Por que ele não foi me buscar? Por que essa preocupação e carinho (carinho seria a palavra certa?) com ela e não comigo? Será que com ela é só um senso de obrigação que ainda ficou? O quanto que sermos independentes e querermos ter nossa individualidade neutraliza o espaço para gestos e demonstrações de cuidado? Eu me abstenho de falar sobre inseguranças relacionadas à Gabriela porque eu sei que, por mais que eles tenham terminado, o Caíque tem esse senso de compromisso com ela pelo envolvimento de longo prazo, por terem uma união estável, dinheiro compartilhado, famílias super envolvidas. Mas eu não consigo não pensar “quando será a minha vez?”. Tenho medo de não conseguir entregar um “pacote completo de relacionamento”, de não ter esse tipo de ligação e cumplicidade com ele, porque isso sempre vai ficar reservado para a Gabriela.

Não quero compartilhar essas inseguranças com ele antes de eu entender bem como eu lidaria com isso e não quero transpassar de que ele precisa escolher entre mim e ela por definitivo. Não quero que ele a exclua da vida dele por mim, não mesmo. Contudo não quero ser complacente o tempo todo e deixar sempre espaço somente para o que importa para ele. Tenho muita dificuldade em entender qual é o melhor caminho, o que é melhor para mim (quando eu falo e quando eu não falo sobre essas inseguranças?).

Conforme essas questões vão se acumulando, eu me vejo diminuir mais e mais. Começo a questionar minha aparência e se ele realmente me acha bonita ou se apenas está esperando por algo “melhor”. Fico pensando que preciso focar na academia, na alimentação, e de fato são coisas importantes, mas sério que isso precisa estar ancorado na minha vontade de agradar uma outra pessoa? Fico me perguntando se minhas roupas são bonitas e meu consumismo me impulsiona a comprar mais e mais para estar sempre montada. Fico me perguntando se ele não me acha muito básica frente ao estilo irreverente e único que ele tem. Cada assunto que ele traz à tona e eu não conheço ou sinto que não sei o suficiente, me sinto burra, me sinto inferior à ele. E de forma mais e mais clara eu vejo os padrões de comportamento herdados do meu término com o Boscolo invadindo minha vida e atrapalhando minha capacidade de ser plena, de ser feliz e contente.

Lapsos de racionalidade e independência até surgem vez ou outra. “Marcela, você gosta das suas roupas, isso que importa. Você é inteligente, você sabe coisas de diversos assuntos, você se banca, tem sua casa, sua vida, suas coisas”. Nesses nanossegundos, eu até me sinto bem, eu até consigo me ouvir e acreditar. Mas passa.

No fim das contas, qualquer relacionamento exige confiança. Eu acredito piamente que quando decidimos namorar alguém, é mais do que qualquer coisa uma decisão. É uma decisão que tomamos todos os dias de estar ali, de compreender e ser compreendido, de cuidar e ser cuidado, de se comprometer em estar presente e fazer dar certo. Amor, carinho, respeito, tesão, desejo e admiração são coisas que fazem com que tenhamos a primeira conexão, o clique inicial que mostra que aquela pessoa é algo a mais. Mas não é só isso que mantém uma relação. Da mesma forma que o esforço não pode ser a qualquer custo, que precisamos ponderar dentro do comprometimento feito se não estamos nos ferindo no caminho. É andar constantemente em uma corda bamba com inseguranças assoprando de um lado e padrões complexos de comportamento do outro.

Eu não estou com o Caíque por obrigação, por medo de ficar sozinha, por comodidade. Estou com ele porque quero estar, porque ele me faz bem e todo segundo ao lado dele mostram que cada insegurança que eu tenho são reflexos de coisas que ainda carrego comigo do passado, e não das atitudes dele. Colocá-las para fora me ajuda a perceber isso, mas ainda me incomoda que elas sequer existam, porque a Marcela de dois anos atrás não era assim e eu queria muito recuperá-la.

Enfim.

...

No fim das contas, confiança de que não vamos cair e, mesmo que cair, a queda não precisa ser tão brusca, é o que mantém nosso equilíbrio.

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