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Sobre amar quando não espera-se amor


Amor era algo bem resolvido na minha vida. Eu já tinha o meu para sempre, eu já tinha o meu parceiro para a vida, eu não precisava mais me preocupar com isso. Tudo o que aprendi com ele era minha verdade absoluta, era a única referência de relacionamento que eu tinha. O que tínhamos era o ápice, o melhor que eu poderia ter. 

Até que não era.

Foram dias e dias de desolamento, dizendo a mim mesma que, se a pessoa que esteve comigo por oito anos e me conhecia por inteiro não me queria mais, quem iria querer? Mesmo repassando centenas de vezes o momento em que eu disse "Acho que é isso, vamos terminar" na minha cabeça, não conseguia tirar o desespero e o medo de estar sozinha de dentro de mim. Quem iria comigo na feira? Quem ia cuidar de mim nos dias em que ficasse doente? Quem ia olhar para mim e sentir tesão? Quem ia afagar o meu cabelo durante um filme? Quem ia ouvir as felicidades e lamúrias do meu cotidiano? Quem ia me dar a mão num passeio no Parque Augusta? 

É duro demais sentir que algo foi tirado de você. Toda a certeza de uma vida resolvida foi dissolvida com seis palavras.
Acho. Que. É. Isso. Vamos. Terminar.

O que vem agora? 

A casa ainda me é estranha, a cama ainda parece grande demais, o silêncio de uma vida sozinha é ensurdecedor, a mudança de hábitos é sofrida e os clichês de término são comicamente reais. De ouvir Cher no meio de uma tarde e chorar ao cantar "Do you believe in life after love?", de não conseguir assistir certos filmes sem se sentir mal, de ter a percepção que todos os pagodes e sertanejos foram escritos especificamente para você, de ser a amiga "adendo" de todos os casais que você conhece. 

O processo de superação em si é carregado de clichês. As coisas que minha família e meus amigos me disseram se fundem com as coisas que vemos em filmes, redes sociais e histórias e me pego sentindo que, de fato, não há nada como um dia após o outro. Começo a gostar cada vez mais da minha companhia, escolher os móveis e a estética da minha casa se tornaram hobbies e saboreio cada decisão tomada sobre minha rotina com muito gosto, porque ela é só minha.

Talvez perceber que você se basta é tão poderoso quanto sentir amor.

Na verdade se bastar torna o amor mais gostoso, mais desafiador. Não existe um déficit emocional para ser suprido pelo outro, resta apenas o gosto genuíno pela companhia de alguém. E mesmo pensando assim, voltar a amar durante esse processo de superação é inesperado. Se pudesse dizer algo para ele, que me trouxe de volta para esse sentimento maravilhoso, seria que eu amo estar apaixonada. Depois de tanta turbulência, pensava que demoraria anos e anos para eu me abrir e ficar vulnerável mais uma vez, mas cá estou, sentindo um borboletário inteiro no estômago.

E na plenitude de saber que tudo o que eu preciso eu mesma posso me dar, é gostoso dar espaço para outra pessoa. É adorável perceber que tudo o que passei não me endureceu ou me traumatizou, e sim me preparou para aproveitar esse novo amor ao máximo. Me trouxe para o estado de mente em que eu sei que eu mereço mais, que existe algo melhor do que "suficiente" me esperando lá fora e que não preciso me contentar com o cômodo (Viu? Clichês.). 

E, mais que tudo, me fez sentir que mesmo as coisas mais singelas podem carregar um sentimento mais intenso que anos de convivência.

Sua voz, seus olhos, suas mãos, seus lábios e cada sorriso entre nós.

cena do filme alphaville de Jean Luc Goddard

 


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