Pular para o conteúdo principal

Ocupação

A Thais me disse em uma de nossas sessões que eu precisava deixar minha criança interior sair mais. Desligar o alarme, não ter planos, deixar o dia passar sem pensar em compromissos, em “to-dos”. A ideia parece simples conforme leio a frase que acabo de escrever, mas para mim a prática chega a ser absurda.

Esse senso de comprometimento é algo tão inerente a minha pessoa que fugir disso parece anormal, forçado.

E então chega essa pessoa para ocupar um tempo de um sábado de abril e, quando me vejo, passou-se um mês e até a roupa suja acumulou. Não é difícil que a companhia de alguém seja mais prazerosa do que lavar roupa ou limpar a cozinha, eu sei, mas para alguém me fazer ignorar por completo essas coisas e meu tal “senso de comprometimento” é algo diferente, é algo a mais.

Quando nos despedimos naquele sábado a noite, eu pensei comigo mesma se eu levantaria muito tarde no domingo e o que eu poderia fazer no meu dia livre (faxina, mercado, marmitinhas da semana, repor coisas para a Roberta). Chega domingo e ele me chama. Agora ele vem ocupar também um espaço. O espaço imaculado da minha casa que, entre lágrimas e solidão, custei a reconhecer como meu lar e, depois de um tempo, quis deixar guardado só para mim. Mas ele entra, tira o tênis para pisar no meu chão de taco, descansa seus 1,80m em meu sofá, olha e toca as minhas fotos e bebe a minha água. É estranho, mas eu deixo. Deixo ele entrar, deixo a casa por faxinar, deixo o mercado para outro dia, deixo as marmitinhas para outra semana e me conformo em almoçar com meu VR.

Na quinta, ele me convida para o passado, o que para quem mora na Consolação se traduz em ir no Riviera. Com cólica em uma véspera de feriado depois de alongar meu expediente até sete e meia da noite, meu senso me dizia para eu ficar em casa e dormir às 22:00. Mas eu fui a esse lugar de luzes neon vermelhas, garçons de gravata borboleta, drinks em copos com borda dourada e sopa de cebola. Mais tarde, depois de deixa-lo invadir meu espaço mais uma vez, recebo carinhos e a insistência em aquecer uma bolsa térmica para as dores menstruais. Em meio aos chamegos, solto uma frase que me pegou de surpresa assim que a pronunciei:

- Vai demorar um tempo para eu me deixar ser cuidada.

Sem pestanejar, ele agora vem ocupar um lado todo da minha cama nova onde ninguém além de mim dormiu, e diz “Você não precisa ser cuidada, só sentir que não está sozinha”.

Na hora me vem outra frase de outra sessão da Thais: “Marcela, o que é cuidado emocional para você?”.

Sinto os dedos dele passando pelo meu cabelo, viajando minha nuca e chegando até a metade das minhas costas curvadas pela dor e digo em voz alta, respondendo a pergunta que ele não sabe que existe: “É isso aqui”. 

E aos poucos essa ocupação de tempo, espaço e lado vira coração transbordando.

Comentários