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Axioma

Acordei e quando fui escovar meus dentes e lavar o meu rosto, mantive o armário de parede aberto. Não quis me olhar no espelho e enfrentar o rosto de uma desconhecida. 

Se em outros momentos da minha vida a autoestima me pregava peças por uma questão de um padrão de beleza no qual eu não me encaixo, agora é puramente pelo fato de eu me sentir descolada da minha própria personalidade. 

Tenho feito coisas que eu nunca pensei que faria. Tenho tido sensações e pensamentos que nem nos meus piores momentos de distimia me causaram tanto asco, tanta desconfiança sobre mim mesma. Acho que quando a gente age mal consigo mesmo é mais fácil de perdoar, de compreender, de tentar seguir em frente. Mas quando nossas ações impactam outras pessoas e, principalmente nossa relação com essas pessoas, a coisa fica muito mais complicada.

Nunca achei que fosse quebrar a confiança de quem eu mais confio no mundo. Nunca achei que qualquer agente externo pudesse ter força suficiente para perturbar uma das relações mais importantes que eu tenho. Me olhar no espelho e não me reconhecer é uma das experiências mais tristes que já vivi. 

Ontem de madrugada eu afirmei para ele que "apesar de ter me ajudado em momentos difíceis, você nunca me viu no meu pior mesmo. O pior veio antes de você. Mas saiba que hoje, agora, é um dos meus piores momentos. Por motivos muito diferentes, mas é". 

Como que a gente se perdoa sem saber se o outro perdoou? Como que eu compreendo uma situação que foi tão impulsiva, tão sem racionalidade? Como eu sigo em frente se a vergonha e o nojo ainda são tão fortes que eu preciso evitar meu reflexo? 

Amá-lo é uma das grandes certezas que tenho. "Axioma" foi o termo que ele usou, um revérbero da sua inteligência e do seu jeito com palavras. Nosso amor esteve tão a prova de falhas ou crises que estar nessa situação é algo inaudito. E se existe algo com o qual eu sei que não sei lidar é o desconhecido, o não saber como fazer algo. Minha primeira reação a qualquer coisa que eu não sei fazer é sempre a mesma: desespero. Até eu chegar no estado mental de calma, contemplação e análise, passam-se dias, noites e muitas lágrimas. 

No fundo, alguma coisa me diz que eu, ele e nós ficaremos bem. Que se existe algo para aprender disso tudo é que realmente preciso ser mais forte que a incerteza e a insegurança nutridas por tudo o que há de ruim nesse mundo. Que não posso deixar que alguém, nem mesmo eu, subjugue minha razão e meus axiomas.

Primeiro dia, primeira noite e algumas lágrimas. 

[continua]

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