Já faz um mês que o meu mundo virou de cabeça para baixo. Um mês questionando sobre tudo o que antes era seguro, conhecido e respeitado. O que antes eram borboletas no estômago, agora é dor de estômago nervosa.
Lá no dia 13 de março de 2022 ele
veio, sem anúncio e preparação nenhuma, me dizer que não queria mais morar
junto. Que precisava ter seu próprio espaço e construir sua individualidade.
Que lá em 2019, quando vim para São Paulo, ele tomou a decisão consciente de
morarmos juntos porque era o certo a se fazer, mas que não era o que ele
queria.
Doeu. Dói ainda. Por mais que eu
entenda as motivações, é muito difícil separá-las da possibilidade de que ele
talvez só não queira mais estar comigo. E então eu perguntei. “Tem outra
pessoa? É algo sobre nós? Alguma coisa entre a gente mudou?”. Não, não é sobre
nós, ele afirma, é sobre ele.
E mesmo assim, depois de quase
oito anos de relacionamento, dentre os quais quatro foram a distância, eu comecei
a ter inseguranças. Comecei a especular, a criar hipóteses,
comecei a me entregar às caraminholas que dominavam minha cabeça. Quis ver o
celular dele, quis perguntar para nossos amigos o que poderia ter acontecido
com ele, quis sair à esmo pela cidade esperando que em algum momento eu acordasse
e percebesse que tinha sido só um sonho ruim. Me tornei alguém que nunca fui e
que não quero ser. A insegura, a inquieta.
E tenho tentado não ser, mas além
da mudança prática de apartamento, ele mudou no trabalho. Teve que assumir
incríveis responsabilidades e isso infere na ausência. Infere no fato de que a
transição que prometemos passar entre morar e não morar juntos, não aconteceu.
E, de repente, eu estava sozinha.
Não comi, não dormi. O trabalho
degringolou e a culpa por não estar funcionando como um ser humano normal
começou a acumular. Em pouco tempo, se foram seis quilos e minha estabilidade
mental.
Mas o que é isso, Marcela? Por
que tudo isso? A angústia é por não
saber lidar com mudanças – como sempre -, é sobre perder a confiança no seu
parceiro, é sobre ter uma dose alta de realidade te mostrando que a gente realmente
não tem controle sobre nada?
E mais alguns dias se passaram.
As minhas tentativas de visitar o apartamento dele foram frustradas. Ele não
quer que eu vá lá enquanto as coisas não estiverem “arrumadas, com cara de casa”.
Uma pessoa que excluiu todas suas redes sociais e tentava limitar o uso de tela
depois das oito horas da noite agora estava constantemente conectada naquele
aparelho minúsculo, mas que me atingia como uma bigorna e fomentava minhas
inseguranças. Os possíveis almoços durante a semana nunca aconteceram. As
coisas ficaram difíceis para ele no trabalho, eu entendo, mas eu não esperava a
ocorrência de um movimento tão brusco e tão insensível nesse momento da minha
vida. A angústia é sobre a surpresa. É sobre sentir que ele guardou isso por um
tempo e só veio falar comigo com a decisão tomada e as malas prontas. É
desconfiar que ele esteja guardando outras coisas e eu tenho medo de me
machucar de novo. É saber que existe um qualquer tóxico do convívio dele que se sentiu compelido a me mostrar que ele flerta com a menina do trabalho dele, que ela flerta com ele. É sentir
a imposição de que eu não deveria me importar com isso, porque, afinal, ele
nunca agiu em cima dessas investidas. É sobre entender e concordar que a gente
sente tesão sobre outras pessoas, mas que eu realmente gostaria que ele
conversasse comigo sobre isso. Afinal, sempre falamos sobre essas questões antes. O que mudou?
A angústia é sentir que não o
conheço mais. Não é sobre ele sentir tesão sobre outra pessoa, sobre querer teu
seu canto, sobre querer construir suas individualidade. É sobre sentir que, no
frigir dos ovos, a responsabilidade emocional que eu achei que tínhamos, na
verdade não temos. É, principalmente, por me sentir enganada.
Se a insegurança é minha, se as
caraminholas são minha criação e as crises de angústia são produtos meus e, por
isso, eu preciso lidar com eles de forma autônoma, eu realmente esperava que
ações que deliberadamente criam essa insegurança pudessem ser atentadas, pelo
menos por enquanto. Enquanto ainda dói, enquanto ainda estou aprendendo a
lidar.
E então eu penso comigo “Isso é tolher
o outro?”. Me pergunto se, em meio a tantas incertezas, começar agora a pedir regras
no arranjo do nosso relacionamento não seria justamente dinamitar algo que parece
já estar fragilizado. A dúvida cruel paira: seria esse o começo do fim?
E então eu olho para trás. Para
as noites de pânico em Limeira que só se acalmavam quando eu pensava nele. Para
o sorriso de boca fechada que me conquistou junto com seus olhos inchadinhos. Em
toda a força que ele me ajudou a construir para ultrapassar as dúvidas em
relação a mim e ao meu potencial. Para cada mão estendida para minha avó quando
ele gentilmente se oferecia para ir buscá-la nos almoços de domingo. Nas mãos
fortes que me seguram, cozinham junto comigo, me dão apoio, prazer e suporte. Na sensação do seu corpo contra o meu com aquela temperatura que é só dele.
Olho para a sensação pungente de
não querer renunciar a uma das melhores coisas que já aconteceram comigo. No
quanto que eu aprendi com ele todos os dias. No quanto eu ainda quero aprender,
viver e experimentar junto com ele.
E a insegurança se dilui em um fluxo
de amor e paciência. Se mistura com um mar salgado de lágrimas caídas nos
minutos anteriores, no dia anterior, no último mês inteiro. E o que fica é o
sabor agridoce de algo conhecido e amado que não acabou, mas está mudando.
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