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Em um dia no começo de 2011, estávamos na sala da casa do Miguel. Era mais uma sexta ou sábado qualquer de narguile, cerveja e risadas. Em certo momento, estávamos todos meio entediados, deitados entre os três sofás daquele cômodo enorme e eu soltei, sem pensar muito, a seguinte frase:
"Sabe o que eu comeria agora? Um Big Mac.".
A frase despretensiosa foi imediatamente seguida por um auê do meu irmão, que começou a rir e gritou "O QUE?".
Veja bem, lá no começo de 2011 já faziam dois anos que eu não comia carne. Filha de um pai que faz churrasco todos os finais de semana e com um irmão que só faltava comer pedra com sal, o vegetarianismo se tornou algo engraçado, uma piada interna da nossa família. 
O tédio se esvaiu e deu para sentir a energia da sala mudar. Meu irmão se levantou, pegou seu celular na mesa e começou a fazer um vídeo.
"Repete o que você falou" - ele começa.
"Xuxu, pelo amor..."
"Vai, repete".
"EU COMERIA UM BIG MAC" - exclamei.
"OK, ENTÃO VAMOS, VAMOS GENTE, LEVANTEM, LEVANTEM" - esbraveava ele.  
Tiramos os dois carros da garagem e lá fomos eu, meu irmão, Miguel, Isis, Du e Tamires para o McDonald's da Norte Sul. Engraçado ser essa a lembrança que me veio a mente hoje, dia 20 de abril de 2022, às 04:43 da manhã. 
Hoje tive mais uma noite mal dormida, mais uma noite com ansiedade, angústia e desolamento. O último mês foi muito difícil e nesse momento estou apenas aguardando algo bom acontecer, porque parece que passei por uma bateria de testes psicológicos que ainda não tiveram seu resultado liberado.
E no meio disso tudo, essa lembrança no dia em que, a onze anos, meu irmão morreu.
Só ele conseguiria fazer tanta festa de algo tão banal. Só ele conseguiria transformar a minha vontade de comer "carne" (sabe-se lá o que é aquilo nos lanches do McDonald's) em um evento, em algo a ser filmado, registrado e conhecido. Ainda me lembro da sua risada, dele filmando a primeira mordida enquanto falava "Esse, meus caros, é um momento histórico. Agora come uma batatinha!".
O último ano de vida dele foi um dos melhores períodos da minha vida. Eu estava no último ano no ensino médio, me preparando para ir para a faculdade, tinha esse núcleo de amigos incríveis e eu e meu irmão saíamos todo fim de semana juntos. Foi um momento em que nossos círculos sociais se cruzaram e finalmente chegamos a ter algo além da "obrigação" da irmandade sanguínea. Naquele último ano de sua vida, meu irmão era um dos meus melhores amigos.
Acho que hoje, aqui em 2022, eu me vejo em um momento de insegurança e solidão. A vulnerabilidade de se sentir assim faz com que esse dia 20 de abril seja dolorido, de um jeito que a anos não era. Porque, sinceramente, tudo o que eu queria agora era aquele melhor amigo comigo e não tem como eu ter isso. 
Nesses onze anos eu nunca especulei sobre como ele seria hoje em dia. Se ele teria ido para a faculdade como estava pensando nos últimos dias antes de morrer. Se ele estaria casado, se já teria filhos, se teria encontrado algo que ele realmente gostasse de trabalhar. Todas essas são indagações da minha avó, de colegas meus. Eu realmente nunca consegui ou tive a necessidade de fazer isso, mas hoje eu fiz. Pensei comigo "Será que ainda seríamos companheiros como naquele 2010-2011?"
Eu realmente precisava daquela pessoa que transformava qualquer ambiente com uma piada qualquer, que mesmo nos momentos em que a conversa tinha um tom de seriedade, conseguia trazer uma leveza ímpar.
Conversando com uma amiga ontem, eu comentei que eu não queria estar sozinha hoje. Não quero que qualquer momento em que minha mente não esteja ocupada, eu me entregue às ansiedades e inseguranças advindas do último mês ou às últimas cenas que tenho do meu irmão junto com a saudade esmagadora que ainda existe mesmo depois de onze anos.
Pelo menos pelos próximos minutos, vou repassar o filme daquele celular LG deveras obsoleto para 2022 na minha cabeça, já que o arquivo se perdeu a muito tempo entre pendrives e trocas de computador. Tentar ouvir a risada dele quando, depois de colocar uma batata no nariz, se engasgou com os cristais de sal que foram narina a dentro. Tentar ver o verde dos seus olhos que só ele dos três irmãos conseguiu ter, ou as canelas finas que entregavam a descendência dos Rezendes. Tentar lembrar do caminho de volta para casa, em uma Anhanguera vazia das três da manhã, ouvindo "The Final Countdown" no repeat.
Sem o filtro de ar no carro, é claro. 

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