Pular para o conteúdo principal

Coisas de Dawson

Há dez anos eu te encontrei nas escadas de pedra da quadra de esportes. Era um dia aleatório, não tinha nada de diferente ou extraordinário. Não me lembro sobre o que conversávamos, mas foi o dia em que eu te chamei de alma gêmea. Assim, despreocupadamente, como alguém que pergunta o que você comeu no almoço.

"Alma gêmea, sabe? É como um melhor amigo, só que mais. É a pessoa que te conhece como ninguém, que te faz ser alguém melhor. Aliás não, alma gêmea te inspira a ser alguém melhor e de alguma forma a gente aprende como melhorar sozinho. É uma das únicas pessoas que você leva para o resto da vida, que te entende, te aceita e que acredita em você antes de qualquer pessoa fazer isso, mesmo você. E não importa o que aconteça, você sempre vai amá-la e ninguém vai mudar isso."

Era novembro, tínhamos catorze anos e éramos arrogantes, como qualquer adolescente que se acha maduro o é. Agora é novembro, temos vinte e quatro anos e estamos sentados em uma praça às 04:37 da manhã contando tudo o que ficou engasgado nos últimos meses.

Nesses dez anos, tivemos todas as reviravoltas que eu jamais esperava. Algo tão fundamental e natural se tornou tóxico e em algum momento seguimos caminhos diferentes. Ainda assim, com todos os reveses e todas as problemáticas de duas pessoas que se perderam uma na outra, eu continuei te guardando como minha alma gêmea. Aquele dia despretensioso de 2007 foi um voto eterno, algo que eu jamais achei que pudesse fazer. Para falar a verdade, não sei se o faria hoje, não sei se teria a coragem para tanto. Talvez seja a covardia da idade ou talvez seja a sorte de ter encontrado alguém tão importante e tão cedo de forma que ninguém poderia se igualar a você para mim.

E então as mentiras se tornaram tão intrínsecas que nosso relacionamento implodiu.

Os meses sem você na minha vida foram necessários, mas difíceis. Era como se de repente eu descobrisse que não tinha mãos, sendo que para mim elas sempre estiveram ali. E o pior de tudo era sentir que era definitivo. Nem uma prótese perfeita de amizade poderia ser o que você foi. No bar, antes de partimos para a praça, você me perguntou:

- Você achou que nunca mais fôssemos nos falar?

Sem hesitar, respondi:

-Achei.

- Eu não. Eu sabia que a gente ia encontrar o caminho de volta.

Otimista como sou para a vida dos outros, poderia ter pensado "Espero que ele encontre alguém", mas pessimista como sou com minha vida, só conseguia pensar "Eu nunca mais vou conseguir olhar para ele". Não existia caminho de volta, eu tinha me vacinado contra o cabelo de Medusa formado pelas nossas manipulações. Foram meses sem contato nenhum, dois anos até conseguir falar mais do que banalidades um para o outro. Nos tornamos conhecidos, as interações eram formais. Isso doía.

E então o clique. Alguma coisa em mim mudou. Muitas, na verdade. A gente se ferra um pouco, rola uma autossabotagem, mas eventualmente eu e você aprendemos algumas coisas. Entre elas, aprendi algo tão simples e óbvio que parece ridículo considerar uma conquista.

Todo mundo adora se sentir querido, adora sentir pessoas correndo atrás da gente. Alguns talvez até precisem disso para se sentirem felizes, satisfeitos. E quando isso não acontece, parece que toda a vida desanda. Mas olha a hipocrisia da coisa quando queremos tanto que os amigos liguem, queiram nos ver e mandem mensagens e não fazemos o mesmo por eles.

Num regresso rápido, me lembro de outro episódio de 2007 onde você e Vini se sentaram comigo e começamos a falar uns sobre os outros. Quando chegamos no ponto de falar dos meus defeitos, vocês disseram "Marcela, você não sabe pedir desculpas. Eu nunca vi você pedindo desculpa, mesmo quando assume que está errada". POW. Que tal esse chacoalhão para entender o quão importante esses amigos são importantes na minha vida? E a questão que fica é o fato de ser orgulhosa demais. O orgulho me custou algumas coisas, mas no meu clique eu fiz outro voto eterno em outro dia aleatório: eu não deixaria meu orgulho me custar amizades. Não é difícil se mostrar interessado e querer manter uma amizade, é só dizer isso para as pessoas. Sem essa de demonstrar, sem essa de subentender. Tem que dizer mesmo.

A gente perde muito tempo esperando que as pessoas entendam e captem nossos sentimentos e intenções, quando podemos simplesmente dizer o que sentimos e o que queremos. De alguma forma você me inspirou a ser assim.

Com o tempo a gente vai sendo moldado pelo mundo a nossa volta e a minha blindagem social me convenceu que era mais confortável permanecer na minha concha. Era melhor ficar reclusa do que ser aquela adolescente que conseguiu arrebatar uma declaração eterna para o seu amigo. Ainda não consigo listar as situações que culminaram no meu clique, mas sei que foi um daqueles momentos que mudam nossa vida. A essa altura, não me importa se eu vou conseguir manter todos os meus amigos por perto. Os meus esforços estão concentrados em garantir que essas pessoas saibam o quanto elas são importantes para mim. Eu só posso esperar que a recíproca seja verdadeira.

Lá em 2007, em uma arquibancada de pedra, a naturalidade da nossa amizade me despertou a vontade de dizer tudo o que eu sentia. Você é meu melhor amigo, só que mais. É alguém que mesmo com todas as merdas e mesmo depois de treze anos, me conhece como poucos. Por todas as melhores, mas principalmente as piores características da sua personalidade, você me inspira a ser alguém melhor por nós e me fez amadurecer em muitos sentidos. Mesmo quando achava que nunca mais fosse conseguir te ver, eu te guardava no meu coração, te levando para todos os lugares comigo. Você pode não ter me entendido em alguns momentos, mas sempre me apoiou. E mesmo quando eu não te entendia ou sentia que você não estava me falando algo, eu te aceitava e te apoiava. Dez anos depois e eu continuo acreditando que você é a pessoa com quem eu vou viver o resto dos meus dias, estando ou não ao seu lado.

E é incrível ver que alguma coisa nos trouxe aqui, nos mostrou o caminho de volta. Hoje, depois de muito tempo cozinhando todos os erros que nos levaram a duvidar a validade da nossa amizade, conseguimos pedir perdão ou descarregar as mágoas sem raiva.

Está frio, é madrugada na cidade que a gente tanto ama e ainda temos meia Heineken para matar. Não consigo me lembrar a última vez que estive tão acordada a essa hora do dia. Parecem os velhos tempos, em que bebíamos muito na Sam e íamos direto para a feira comer pastel. Mas não são. As coisas nunca vão voltar a ser as mesmas, mas pela primeira vez isso não é ruim.

- Vão ser melhores, Mar.







Comentários