Nos últimos meses reassisti a duas séries televisivas que fizeram parte da minha adolescência e que, com o perdão de um possível excesso, me ajudaram a ser quem eu sou hoje.
Rever Dawson's Creek é no mínimo estranho quando penso nas similaridades da ficção com minha vida, então seria impossível não derramar algumas lágrimas quando assistia à cenas que pareciam terem saído do meu diário e contadas por alguém que me conhece muito bem.
Mas o mais importante foi a nova perspectiva que tive da minha vida. Em alguns meses vou completar vinte e um anos e digamos apenas que não estou no lugar onde pensei (aos mesmos quinze anos) que estaria. Não estou quase me formando na universidade, não moro sozinha e não tenho a mínima ideia do que quero fazer com a minha vida.
E isso me fez entrar em pânico. Veja bem, não foi pouca coisa, não foi um dia de choro que terminou em uma ligação ao meu melhor amigo e tudo deu certo. Eu entrei em pânico. Pensei em suicídio. Não conseguia me olhar no espelho sem chorar. E, mais uma vez, não foi por pouco tempo. Foram dois anos em que essa coisa ruim foi crescendo dentro de mim até o dia fatídico em que quase pulei da minha sacada e decidi procurar ajuda.
Quase um ano depois desse dia, posso dizer que estou melhor. Não sei se tinha como piorar muito, mas deixe-me tomar uma visão positiva da situação. Ainda me preocupo com a ideia de que provavelmente só vou sair da universidade aos vinte e sete anos, mas não é o tipo de coisa que me tira o sono e a vontade de viver. Ainda me cobro demais, mas consigo seguir meus dias em paz. Ou com menos esforço.
Assistir Dawson's Creek trouxe de volta o meu eu de sete anos atrás. Lembrei de que, acima de qualquer profissão, o meu objetivo era ser feliz. Que amizades podem resistir à prova do tempo e a mil obstáculos. Que não tem problema nenhum em sonhar alto desde que você saiba que vai ter que lutar por isso. Lembrei de todos esses idealismos que apesar de parecerem ingênuos me confortaram de um jeito que não consigo descrever. Eles se perderam no meio de todas as confusões recentes da minha vida e fiquei muito aliviada em recuperá-los.
Acima de qualquer coisa, entendi um coisa. Um insight sobre um clichê, desses fáceis de se dizer mas difícil de se praticar -pelo menos para mim.
Eu não posso espelhar a vida dos outros na minha e não posso espelhar a minha vida na dos outros. Não posso querer ser uma Joey Potter e muito menos um Pacey Witter. Meu passado, minha família, meus amigos, minhas músicas, seriados, filmes, manias e aprendizados me fizeram ser uma Marcela Vincoletto Rezende e pela primeira vez em muito tempo - se não a primeira vez, de fato- eu não quis ser mais ninguém.
Quando se está no auge da adolescência é muito fácil querer ser tal pessoa, querer ter tal tipo de vida, ser de tal grupo de pessoas. É difícil entender quem se é, como são suas atitudes, sua personalidade, quais são suas limitações. Por muito tempo quis ser aquela menina extrovertida do centro da roda de conversa que consegue conversar com qualquer pessoa -até entender que não sou nem um pouco essa menina. Quis ser a menina que vai em festas da faculdade e conhece metade das pessoas que vão nessas festas- até perceber que sou do tipo poucos amigos e que até vai nessas festas, mas prefere ficar com os conhecidos conversando sobre um vídeo viral engraçado.
Não é uma tentativa de parecer intelectual e blasé. Não me acho melhor que essas pessoas que de fato são o centro das atenções, conversam com qualquer tipo de pessoa, vão à festas, são a animação encarnada e se sentem confortáveis nesse cenário. Ainda admiro essas pessoas, só que agora aprendi a me admirar, a me respeitar. Muitas vezes nem percebemos quando estamos nos forçando a ser alguém que não somos. É terrível, é uma violência a si mesmo. Eu sentia um vazio que por muito tempo achei que fosse apenas pela morte do meu avô e do meu irmão, quando o que faltava era um pouco de mim mesma, também.
Claro que todos esses insights não vieram apenas com Dawson's Creek, não acho que eu seja uma pessoa tão profunda e perceptiva assim. Aquela ajuda que procurei após o dia fatídico se chama Mônica e é um psicóloga incrível que me ajudou muito. Eu era um tanto cética quando o assunto era pagar alguém que ouvisse suas reclamações e fizesse algo com isso, mas hoje sei que eu não estaria bem como estou se não fosse por esse recurso.
O tema amizade, que para mim é o principal em Dawson's Creek, rodeou minha cabeça por semanas enquanto eu analisava cada relacionamento que tive e tenho. A questão é que tenho pessoas incríveis ao meu redor e sempre fui muito grata por isso, ao nível de realmente agradecer todos os dias pela força cósmica que for por eu ter essa sorte. Meu grupo de amigos são pessoas que satisfazem minha necessidade de ter um porto seguro, de ter alguém para ligar quando eu quiser chorar porque quero voltar para casa, de ter interesses em comum com pessoas que discutam comigo, batam de frente comigo e sempre me ensinem mais e mais. E claro, de ter alguém que vire oito shots de Velho Barreiro comigo porque, sei lá, é sábado ou algo assim. Isso foi um problema quando entrei na universidade, porque na minha cabeça já tinha amigos incríveis e não precisava de outros, o que é estúpido. Quem se priva de amigos, afinal?
Enfim cheguei mais uma vez ao final da série e realmente me senti melhor. Não necessariamente outra pessoa, mas uma pessoa mais plena. Enfim estava me recuperando dos meus dias negros, aprendendo valores importantes e relembrando outros tantos.
Em seguida, Gilmore Girls.
Não me lembro ao certo quando comecei a assistir Gilmore Girls, mas sei que absorvi tanta cultura pop e referências de mil e uma coisas que isso realmente refletiu na minha formação. Desde ser fã do Conan O'Brien a ter uma vontade imensa de conhecer Yale esse seriado me apresentou muita coisa. E sempre achei que eu fosse meio Rory Gilmore, principalmente quando descobri que compartilhávamos uma admiração pela Christiane Amanpour.
Reassisti Gilmore Girls nos últimos dois meses, uma época em que eu estava em casa com minha família, meus amigos, de férias da faculdade e ainda assaltada pela dúvida 'Engenharia Ambiental é mesmo para mim?' . Essa dúvida é como uma sombra constante, uma voz que está sempre lá para me atormentar.
Como já disse, ainda não sei o que quero fazer da vida e para atrapalhar eu tenho interesse tanto pela área de exatas quanto pela de humanas. Eu prestei Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Ambiental no vestibular em 2012, sem contar o semestre de Agroecologia na UFSCar em 2011, o curso de Linguagem Arquitetônica em 2012 e as aulas de pintura à óleo lá em 2003. Minhas opções já variaram entre Psicologia, Engenharia Química, de Alimentos, Agrícola, Naval, Artes Visuais, Física, Jornalismo e uma carreira militar na Marinha Brasileira. Meus interesses vão de cinema à física quântica, então fica difícil encontrar um caminho definitivo ou uma compilação de todas essas áreas.
Assim como a Rory, eu tinha como sonho uma universidade. Fui uma boa aluna ao longo da vida e consegui entrar em uma federal direto do ensino médio. A UFSCar era meu sonho desde meus doze anos. Não sei por que, além do fato de estar no caminho para Borborema, a cidade em que minha avó paterna mora, mas pesquisei sobre a história da universidade, sobre cursos pelos quais eu nem tinha interesse, sobre os docentes e os reitores.
Entrei, estudei e larguei. Aquilo não era o que eu queria, nem um pouco.
Então eu não tinha um plano, não tinha um objetivo, não tinha um sonho. O sonho tinha sido realizado e acabado.
E agora?
Quando a Rory se forma em Yale ela vê uma amiga casada e com filhos, outra amiga aceita em seis Grad Schools, inclusive na Harvard Med, e ela ali, sem rumo, sem saber para onde ir, sabendo apenas que queria ser jornalista. Pela primeira vez ela não tinha um caminho traçado e aquilo assustou.
Isso me assusta.
Eis que, então, tive mais um daqueles insights meio que influenciados pelos meses de terapia até o momento.
Dificilmente nossa vida acontece exatamente como planejamos. Pequenos planos como uma viagem no fim de semana ou uma festa surpresa até acontecem, mas estou falando sobre grandes planos. Isso não significa que não devemos sonhar, não devemos querer mais, querer o melhor. Significa que grandes planos tem de ter pequenas especificações. O sonho pode se realizar, mas como você chega lá são outros quinhentos. Pegar dp em Cálculo I não significa que você vai fracassar na vida. Se formar sem um emprego não significa que você não vai ter sucesso. Não se casar antes dos trinta não significa que você vai morrer sozinha.
É uma visão simples e que a maioria conhece, mas para uma pessoa como eu que se cobra para excelência em níveis absurdos, é uma filosofia um tanto difícil de ser praticada.
Rory Gilmore, editora do Yale Daily News e pessoa extremamente esforçada, se formou sem saber o que fazer, sem emprego e terminando com o namorado que a pediu em casamento. Não me importa se ela é uma personagem de ficção que tem suas características maximizadas para ter um efeito dramático. Ela é para mim um exemplo de vida, pois assim como acontece com Dawson's Creek, me identifico bastante. E me apeguei muito a uma ideia que o avô de Rory, Richard, diz para ela em um dos episódios da última temporada e que vai mais ou menos assim: "Um coração bom e gentil sempre vence no final do dia" e que se assemelha a uma frase famosa de outro ídolo meu, Ryan Dunn: "It's simple, just be nice".
Porém a coisa mais importante que tirei dos dois meses em que revi Gilmore Girls veio do relacionamento entre Rory e Lorelai, a mãe. Bem no final da série, quando Rory está para deixar sua casa e seus anos em Yale, ela diz para sua amiga que não está pronta para ir embora e se pergunta que tipo de repórter surta por se separar e ficar longe da mãe. Lane, a amiga, responde calmamente: "O tipo sortudo".
Moro em outra cidade por conta da universidade e vejo colegas que ficam semanas sem voltar para casa enquanto eu faço questão de voltar todo fim de semana. Nos meus primeiros dias longe de casa ano passado e mesmo no começo desse ano, chorei na minha cama por puro e sincero desamparo. Queria voltar para casa e ficar perto dos meus pais. Como uma boa auto inquisidora que sou, me julguei por isso, por ter vinte anos e sentir saudade de casa depois de dois dias longe, por querer ligar três, quatro vezes para minha mãe todos os dias.
Com a Mônica já tinha me dado conta de como meus pais são tão incríveis que me fazem ser difícil não vê-los. Eu sou do tipo sortuda, que tem uma família e um grupo de amigos para quem voltar todo final de semana e, sinceramente, não pretendo me sentir mal por isso daqui para frente. Tenho certeza que com o passar do tempo o desamparo vai aliviar e consequentemente vou seguir meu rumo, mas nunca vou abrir mão do meu porto seguro.
Sim, de fato uma pessoa mais plena.
E então no último episódio da série, Rory afirma, depois de conseguir um emprego na campanha para presidência de Barack Obama, uma filosofia que um professor inesquecível meu dizia ao final de suas aulas e que depois de anos surtiu efeito em mim:
"No final, tudo dá certo."
Rever Dawson's Creek é no mínimo estranho quando penso nas similaridades da ficção com minha vida, então seria impossível não derramar algumas lágrimas quando assistia à cenas que pareciam terem saído do meu diário e contadas por alguém que me conhece muito bem.
Mas o mais importante foi a nova perspectiva que tive da minha vida. Em alguns meses vou completar vinte e um anos e digamos apenas que não estou no lugar onde pensei (aos mesmos quinze anos) que estaria. Não estou quase me formando na universidade, não moro sozinha e não tenho a mínima ideia do que quero fazer com a minha vida.
E isso me fez entrar em pânico. Veja bem, não foi pouca coisa, não foi um dia de choro que terminou em uma ligação ao meu melhor amigo e tudo deu certo. Eu entrei em pânico. Pensei em suicídio. Não conseguia me olhar no espelho sem chorar. E, mais uma vez, não foi por pouco tempo. Foram dois anos em que essa coisa ruim foi crescendo dentro de mim até o dia fatídico em que quase pulei da minha sacada e decidi procurar ajuda.
Quase um ano depois desse dia, posso dizer que estou melhor. Não sei se tinha como piorar muito, mas deixe-me tomar uma visão positiva da situação. Ainda me preocupo com a ideia de que provavelmente só vou sair da universidade aos vinte e sete anos, mas não é o tipo de coisa que me tira o sono e a vontade de viver. Ainda me cobro demais, mas consigo seguir meus dias em paz. Ou com menos esforço.
Assistir Dawson's Creek trouxe de volta o meu eu de sete anos atrás. Lembrei de que, acima de qualquer profissão, o meu objetivo era ser feliz. Que amizades podem resistir à prova do tempo e a mil obstáculos. Que não tem problema nenhum em sonhar alto desde que você saiba que vai ter que lutar por isso. Lembrei de todos esses idealismos que apesar de parecerem ingênuos me confortaram de um jeito que não consigo descrever. Eles se perderam no meio de todas as confusões recentes da minha vida e fiquei muito aliviada em recuperá-los.
Acima de qualquer coisa, entendi um coisa. Um insight sobre um clichê, desses fáceis de se dizer mas difícil de se praticar -pelo menos para mim.
Eu não posso espelhar a vida dos outros na minha e não posso espelhar a minha vida na dos outros. Não posso querer ser uma Joey Potter e muito menos um Pacey Witter. Meu passado, minha família, meus amigos, minhas músicas, seriados, filmes, manias e aprendizados me fizeram ser uma Marcela Vincoletto Rezende e pela primeira vez em muito tempo - se não a primeira vez, de fato- eu não quis ser mais ninguém.
Quando se está no auge da adolescência é muito fácil querer ser tal pessoa, querer ter tal tipo de vida, ser de tal grupo de pessoas. É difícil entender quem se é, como são suas atitudes, sua personalidade, quais são suas limitações. Por muito tempo quis ser aquela menina extrovertida do centro da roda de conversa que consegue conversar com qualquer pessoa -até entender que não sou nem um pouco essa menina. Quis ser a menina que vai em festas da faculdade e conhece metade das pessoas que vão nessas festas- até perceber que sou do tipo poucos amigos e que até vai nessas festas, mas prefere ficar com os conhecidos conversando sobre um vídeo viral engraçado.
Não é uma tentativa de parecer intelectual e blasé. Não me acho melhor que essas pessoas que de fato são o centro das atenções, conversam com qualquer tipo de pessoa, vão à festas, são a animação encarnada e se sentem confortáveis nesse cenário. Ainda admiro essas pessoas, só que agora aprendi a me admirar, a me respeitar. Muitas vezes nem percebemos quando estamos nos forçando a ser alguém que não somos. É terrível, é uma violência a si mesmo. Eu sentia um vazio que por muito tempo achei que fosse apenas pela morte do meu avô e do meu irmão, quando o que faltava era um pouco de mim mesma, também.
Claro que todos esses insights não vieram apenas com Dawson's Creek, não acho que eu seja uma pessoa tão profunda e perceptiva assim. Aquela ajuda que procurei após o dia fatídico se chama Mônica e é um psicóloga incrível que me ajudou muito. Eu era um tanto cética quando o assunto era pagar alguém que ouvisse suas reclamações e fizesse algo com isso, mas hoje sei que eu não estaria bem como estou se não fosse por esse recurso.
O tema amizade, que para mim é o principal em Dawson's Creek, rodeou minha cabeça por semanas enquanto eu analisava cada relacionamento que tive e tenho. A questão é que tenho pessoas incríveis ao meu redor e sempre fui muito grata por isso, ao nível de realmente agradecer todos os dias pela força cósmica que for por eu ter essa sorte. Meu grupo de amigos são pessoas que satisfazem minha necessidade de ter um porto seguro, de ter alguém para ligar quando eu quiser chorar porque quero voltar para casa, de ter interesses em comum com pessoas que discutam comigo, batam de frente comigo e sempre me ensinem mais e mais. E claro, de ter alguém que vire oito shots de Velho Barreiro comigo porque, sei lá, é sábado ou algo assim. Isso foi um problema quando entrei na universidade, porque na minha cabeça já tinha amigos incríveis e não precisava de outros, o que é estúpido. Quem se priva de amigos, afinal?
Enfim cheguei mais uma vez ao final da série e realmente me senti melhor. Não necessariamente outra pessoa, mas uma pessoa mais plena. Enfim estava me recuperando dos meus dias negros, aprendendo valores importantes e relembrando outros tantos.
Em seguida, Gilmore Girls.
Não me lembro ao certo quando comecei a assistir Gilmore Girls, mas sei que absorvi tanta cultura pop e referências de mil e uma coisas que isso realmente refletiu na minha formação. Desde ser fã do Conan O'Brien a ter uma vontade imensa de conhecer Yale esse seriado me apresentou muita coisa. E sempre achei que eu fosse meio Rory Gilmore, principalmente quando descobri que compartilhávamos uma admiração pela Christiane Amanpour.
Reassisti Gilmore Girls nos últimos dois meses, uma época em que eu estava em casa com minha família, meus amigos, de férias da faculdade e ainda assaltada pela dúvida 'Engenharia Ambiental é mesmo para mim?' . Essa dúvida é como uma sombra constante, uma voz que está sempre lá para me atormentar.
Como já disse, ainda não sei o que quero fazer da vida e para atrapalhar eu tenho interesse tanto pela área de exatas quanto pela de humanas. Eu prestei Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Ambiental no vestibular em 2012, sem contar o semestre de Agroecologia na UFSCar em 2011, o curso de Linguagem Arquitetônica em 2012 e as aulas de pintura à óleo lá em 2003. Minhas opções já variaram entre Psicologia, Engenharia Química, de Alimentos, Agrícola, Naval, Artes Visuais, Física, Jornalismo e uma carreira militar na Marinha Brasileira. Meus interesses vão de cinema à física quântica, então fica difícil encontrar um caminho definitivo ou uma compilação de todas essas áreas.
Assim como a Rory, eu tinha como sonho uma universidade. Fui uma boa aluna ao longo da vida e consegui entrar em uma federal direto do ensino médio. A UFSCar era meu sonho desde meus doze anos. Não sei por que, além do fato de estar no caminho para Borborema, a cidade em que minha avó paterna mora, mas pesquisei sobre a história da universidade, sobre cursos pelos quais eu nem tinha interesse, sobre os docentes e os reitores.
Entrei, estudei e larguei. Aquilo não era o que eu queria, nem um pouco.
Então eu não tinha um plano, não tinha um objetivo, não tinha um sonho. O sonho tinha sido realizado e acabado.
E agora?
Quando a Rory se forma em Yale ela vê uma amiga casada e com filhos, outra amiga aceita em seis Grad Schools, inclusive na Harvard Med, e ela ali, sem rumo, sem saber para onde ir, sabendo apenas que queria ser jornalista. Pela primeira vez ela não tinha um caminho traçado e aquilo assustou.
Isso me assusta.
Eis que, então, tive mais um daqueles insights meio que influenciados pelos meses de terapia até o momento.
Dificilmente nossa vida acontece exatamente como planejamos. Pequenos planos como uma viagem no fim de semana ou uma festa surpresa até acontecem, mas estou falando sobre grandes planos. Isso não significa que não devemos sonhar, não devemos querer mais, querer o melhor. Significa que grandes planos tem de ter pequenas especificações. O sonho pode se realizar, mas como você chega lá são outros quinhentos. Pegar dp em Cálculo I não significa que você vai fracassar na vida. Se formar sem um emprego não significa que você não vai ter sucesso. Não se casar antes dos trinta não significa que você vai morrer sozinha.
É uma visão simples e que a maioria conhece, mas para uma pessoa como eu que se cobra para excelência em níveis absurdos, é uma filosofia um tanto difícil de ser praticada.
Rory Gilmore, editora do Yale Daily News e pessoa extremamente esforçada, se formou sem saber o que fazer, sem emprego e terminando com o namorado que a pediu em casamento. Não me importa se ela é uma personagem de ficção que tem suas características maximizadas para ter um efeito dramático. Ela é para mim um exemplo de vida, pois assim como acontece com Dawson's Creek, me identifico bastante. E me apeguei muito a uma ideia que o avô de Rory, Richard, diz para ela em um dos episódios da última temporada e que vai mais ou menos assim: "Um coração bom e gentil sempre vence no final do dia" e que se assemelha a uma frase famosa de outro ídolo meu, Ryan Dunn: "It's simple, just be nice".
Porém a coisa mais importante que tirei dos dois meses em que revi Gilmore Girls veio do relacionamento entre Rory e Lorelai, a mãe. Bem no final da série, quando Rory está para deixar sua casa e seus anos em Yale, ela diz para sua amiga que não está pronta para ir embora e se pergunta que tipo de repórter surta por se separar e ficar longe da mãe. Lane, a amiga, responde calmamente: "O tipo sortudo".
Moro em outra cidade por conta da universidade e vejo colegas que ficam semanas sem voltar para casa enquanto eu faço questão de voltar todo fim de semana. Nos meus primeiros dias longe de casa ano passado e mesmo no começo desse ano, chorei na minha cama por puro e sincero desamparo. Queria voltar para casa e ficar perto dos meus pais. Como uma boa auto inquisidora que sou, me julguei por isso, por ter vinte anos e sentir saudade de casa depois de dois dias longe, por querer ligar três, quatro vezes para minha mãe todos os dias.
Com a Mônica já tinha me dado conta de como meus pais são tão incríveis que me fazem ser difícil não vê-los. Eu sou do tipo sortuda, que tem uma família e um grupo de amigos para quem voltar todo final de semana e, sinceramente, não pretendo me sentir mal por isso daqui para frente. Tenho certeza que com o passar do tempo o desamparo vai aliviar e consequentemente vou seguir meu rumo, mas nunca vou abrir mão do meu porto seguro.
Sim, de fato uma pessoa mais plena.
E então no último episódio da série, Rory afirma, depois de conseguir um emprego na campanha para presidência de Barack Obama, uma filosofia que um professor inesquecível meu dizia ao final de suas aulas e que depois de anos surtiu efeito em mim:
"No final, tudo dá certo."
Comentários
Foram 5 anos a 300Km de casa pra mim também. Mas você se adapta. E isso acontece a partir do 2º ano, quando os laços de amizade realmente começam a se formar na universidade pública!
Um beijo!