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Da indecisão mór.

  Na maior parte do tempo, ela se sentia trancada e à espera de alguma grande revelação em sua vida, sem saber como chegou a esse ponto.
  Enquanto lia as folhas do seu diário dos últimos dois anos, não conseguia deixar de notar que uma parte dela não seguiu em frente e amadureceu. Ela ainda carregava as mesmas dúvidas que escreveu aos dezoito anos com uma Bic preta.
  O primeiro ano na sua segunda universidade chegou ao fim e ela já era 1/6 engenheira, mesmo sem saber se é isso que de fato quer para vida. Essa é a dúvida principal: o que cursar? O que fazer da vida? Alguns amigos e sua psicóloga disseram que ela é uma contradição ambulante por ter alma de artista e pensar com o racionalismo de um engenheiro. O fato de gostar de estudar Cálculo ao passo que não consegue ficar sem escrever seus textos e desenhar suas artes deveria ser ótimo, afinal ela poderia fazer qualquer coisa! Mas não, não é assim que funciona.
  O que acontece é a angústia de que há sempre algo faltando na vida: se cursa engenharia, falta a arte. Se cursa arte, faltam as exatas.
  Escolhas nunca foram fáceis para ela, o que a leva a se perguntar se algum dia esse dilema vai ser resolvido. Tem medo de viver uma vida como a do homem que sempre vê atravessar a rua quando ela está de saída de mais uma sessão de terapia. O homem de terno e maleta sempre está com uma cara triste e cabeça baixa e, ao passar pela pastelaria, reclama com o amigo garçom que o trabalho o cansa e os políticos são uma merda. Toda quinta-feira o trabalho o cansa e os políticos são uma merda. Ela duvida que isso varie nos outros dias da semana.
  Ela queria ser uma dessas pessoas que sempre souberam o que queriam. Ou aquelas outras que têm um momento de iluminação em relação à vida. Seu último insight decisivo foi dois dias atrás quando decidiu que iria comer goiaba e não pêra.
  O máximo que conseguiu foi escolher umas matérias eletivas para o próximo semestre no Instituto de Artes. Quem sabe isso supre suas necessidades ambíguas. Tem toda a burocracia de vagas e áreas de curso diferentes, mas ela tem esperança.

  Enquanto isso espera sair suas notas de Laboratório de Física II enquanto lê “História do Cinema” de Mark Cousins. E decide, num insight inesperado, que hoje é dia de comer maçã. 

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