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Um dia de garoa.

 Em frente ao mar, de costas para os mares de morros e sendo banhados por uma garoa incessante, eu e meu pai sentamos na areia e ficamos em silêncio. Meu pai é uma pessoa muito quieta, fala bem pouco e tenho um pouco disso. Não me incomodo nem um pouco em ficar apenas sentada olhando o mar, sem falar nada. Já viajamos por horas e horas sem dizer nada e isso é confortável, é algo nosso.
 Olhei de relance para o seu rosto concentrado e reparei em alguns fios brancos no seu bigode, que é sua marca registrada entre os amigos. Pensei no seu aniversário de 50 anos no dia 27 e lembrei daquela fita de 1997 que mostra uma hora e cinquenta minutos de festa entre os parentes. Me veio a imagem dele quilos mais magro e com cabelos e bigode muito mais pretos, abrindo os braços para que eu e minha irmã nos sentássemos em seu colo.
 Esse homem me ensinou praticamente tudo o que sei da vida, junto com minha mãe. Durmo na mesma posição que ele. Tenho seus olhos, seu nariz, suas mãos, seu cabelo, sua paixão por viagens e coisas antigas. Sua vida é meu maior exemplo e sempre penso que se eu conquistar metade do que ele conquistou, estarei feliz.
 Além da importância que temos que dar à família, o respeito que temos que ter por tudo que nos rodeia e a relevância de ter postura, meu pai me ensinou algo que acredito com afinco: aproveitar a vida.
 Nos Natais vamos para a cidadezinha no interior em que meu pai nasceu e passamos três dias com a família. Entre amigo-secreto, histórias de avós, bisavós e tataravós, ceia e roda de violão temos um grupo incrível de pessoas que além de parentes são amigas e gostam de beber, dar risada, tirar sarro, brindar e, assim, se unir cada vez mais. Os Rezendes têm um brinde criado há muito tempo. Ergue-se os copos no ar e canta-se alto em coro por todos os primos. Acho isso lindo. Chame-os (-nos) de bêbados, má influência para os mais novos, não me importo. Eu cresci em meio a isso e estou muito bem, obrigada. Cresci em meio a festas, a comemorações e desculpas para reunir os amigos e a família e espero manter isso ao longo da minha vida.
 Voltando para o presente, vejo meu pai rindo de um surfista que tomou um caldo. Seu leash arrebentou. O surfista sai da água e senta ao nosso lado na praia quase deserta pela chuvinha. Meu pai olha para a prancha e pergunta para o rapaz:
 -Mar brabo hein? Está tudo bem aí?
 O rapaz dá um sorriso torto e diz:
 -Torci o pé.. vou precisar de um gelo, mas tá tudo bem.
 -Pera aí, tô ali no hotel, já pego um pouco pra você.
 Acabou que ficamos conversando com o solitário surfista, tal qual o do Jorge. Brindamos o mar, o sol, aos bons leashes e ao novo ano e a garoa ainda não tinha parado.

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