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As importâncias do passado.

 A primeira lembrança que eu tenho é encontrar um carrinho de brinquedo no parquinho de areia do condomínio em que eu morei até meus três aos e meio. Ele era vermelho e fiquei limpando-o por um bom tempo para que pouco depois Sara, a babá, tirasse ele da minha mão e o jogasse na areia novamente.
 A primeira lembrança que tenho dos meus pais é deitar com eles na cama de casal de ferro vermelho com um edredom que me cobre até hoje. Foi quando comecei a deitar igual ao meu pai: um braço atrás da cabeça e uma perna apoiada no joelho da outra perna.
 A primeira cicatriz que fiz foi na casa da minha vó Alice e envolveu um piso liso e água com sabão da máquina de lavar. Eu praticamente morava na casa dos meu avós maternos e inventava as coisas mais descabidas para passar o tempo, como dessa vez em que achei que a sensação de deslizar em sabão seria a mesma de patinar no gelo. Enquanto fazia um curativo meu avô disse 'Ainda bem que você não quis saber como é voar...'
 A primeira vez em que beijei alguém foi na escola, na hora da saída, no meio de todo mundo. Puxei o menino pela mão e dei um beijo nele. Nós já estávamos naquele rolinho de dois pré-adolescentes que não sabem o que fazer e só andam de mãos dadas. Foi um beijo bom. Ele ficou surpreso então eu o abracei achando que ele precisava de conforto e fui embora sorrindo. Eu tinha 12 anos.
 A primeira vez que descobri o valor de uma amizade eu tinha 14 anos e meu melhor amigo estava mudando de estado. Até o momento eu ainda sustentava a ideia de que as amizades duram um ano letivo e não acontecem fora da escola. Porém eu já conhecia o Eliseu há três anos e não queria que nossa amizade terminasse com a oitava série. E não terminou. O vi hoje, vou vê-lo amanhã e muitas coisas aconteceram desde 2007, mas nada que abalasse seriamente nossa amizade.
 A primeira vez que escrevi aqui foi no dia 31 de Maio de 2007. Foi quando comecei a escrever textos, histórias e estórias compulsivamente. São 395 textos aqui mas mais da metade nem vale a pena ler. A maioria dos textos que fiz foram escritos à mão. São inúmeros cadernos, diários, agendas e folhas avulsas repletas de palavras que serviram de válvula de escape para seja lá o que eu estivesse pensando ou sentindo no momento.
 O primeiro garoto que derreteu meus ossos ficava com uma das minhas amigas. Cada vez que eu a acompanhava até a casa dele ou via os dois apenas conversando eu sentia uma vontade de chorar incontrolável. Acabei ficando junto com ele, que acabou se tornando meu primeiro amor. Todos os dias me sentia a pessoa mais feliz do mundo e foi a primeira vez que percebi o único lado realmente maravilhoso de ser adolescente: a paixão que você é capaz de sentir.
 Foi nessa época que me tornei impulsiva e fiz minha primeira impulsividade idiota: me deixar levar pela opinião dos outros. Só me causou dor de cabeça, no coração e, por algumas semanas, nos olhos, de tanto chorar.
 A primeira vez que senti que aproveitava o máximo os meus dias estava na casa de uma amiga minha que morava perto do colégio. Eu e meus amigos tínhamos feito uma prova terrível de fim de semestre, fomos almoçar no McDonald's, fomos para a casa dela e passamos o resto da tarde conversando sobre nossas vidas e como poderíamos aproveitar o nosso último ano. Eu tinha 17 anos e foi quando comecei a sentir que o tempo passa rápido demais.
 A primeira vez que me senti adulta foi quando fui para a UFSCar e tive que aprender a conviver com pessoas extremamente diferentes tanto na república quanto nas aulas. Me vi em um lugar totalmente diferente e rodeada de pessoas que não conhecia nem um pouco. Enquanto isso tomava trote e tentava entender Problematização da Realidade Agrícola.
 A primeira vez que senti que o mundo era cruel foi quando tive que contar para minha irmã sem perder o controle que nosso irmão tinha acabado de morrer em um acidente de carro. Uma hora e meia atrás disso eu estava ao lado do Picanto enquanto via os paramédicos tentando salvá-lo. A pior imagem que tenho na minha cabeça é o rosto do meu pai depois que ele conversou com os policiais. Ele não precisou dizer nada. Vi meu pai segurar minha mãe tão forte que eles pareciam um só, ela gritava sem parar. O pai dela, meu vô Arlindo, falecera dois meses antes e mal tínhamos nos recuperado disso. O pior semestre da minha vida, resumidamente.
 A primeira vez que sabia que ia ser feliz e fazer apenas o que realmente amo foi quando larguei a UFSCar. Ainda gosto de Agronomia, mas quando descobri que não é o que quero para o resto da minha vida, me libertei. Desde então voltei à desenhar, pintar, estudar Geometria e sei que não vou ser feliz sem essas coisas.
 A primeira vez que duvidei disso foram todos os dias desde essa libertação. Acho que a gente projeta nosso futuro, mas nunca sabe realmente o que vai acontecer.
 A primeira vez que tive meu coração partido foi bem tarde, comparando com a maioria das pessoas que conheço. Normalmente isso acontece aos 14, 15 anos e não aos 18, 19. Um grande amigo meu me disse que é porque eu não me deixo sentir profundamente e porque deixo as coisas passarem pela minha vida sem me dar conta. Quando de fato me deixei sentir e me apegar, me ferrei. O que não é exatamente um consolo, só prova que talvez eu estivesse melhor antes.
 Minha última lembrança forte foi uma aula incrível que tive de manhã, a última do semestre. Meu professor -que bem chamo de mestre, porque ele é ,para dizer pouco, incrível- disse que a vida plena é como a política para Campos Salles: é de extrema importância, mas que infelizmente a maioria vive alheia à ela; e que cabe a cada um saber chegar lá, medindo as importâncias do passado com as possibilidades do futuro.

Comentários

Nayara .NY disse…
Lendo o que você escreveu comecei a fazer um paralelo com minhas lembranças...
Ás vezes me dá vontade também de largar faculdade, trabalho e ser feliz! (Será que vou ser?) Sempre vem a indecisão!

Sinceramente, estava com muita saudade da qui!
Belíssimo!
Bjooo