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Terças-feiras são chatas. Sempre foram. Ela se lembra de que quando era pequena e estava em uma aula de Matemática em plena terça-feira a tarde e torceu para que não tivesse nascido nesse dia terrível. Mesmo hoje, quase uma década depois, ela se vê bufando cada vez que olha o relógio. Passou uma hora e meia resolvendo exercícios de cálculo e jurou que pareceram quatro horas.
 Na hora do almoço teve que ir a um prédio, no cartório. Quer coisa mais monótona do que isso? Ao sair do prédio, pensou consigo mesma 'O ponto alto do meu dia for ter subido três andares acima do térreo..'. Entrou no Eden Bar para almoçar. Talvez isso a animasse. Comida sempre anima. Mas o que a animou mesmo foram duas pessoas sentadas na mesa ao lado da sua. Um homem e uma mulher estavam com os dedos entrelaçados e olhavam diretamente um para o outro. A mulher segurava um lencinho de pano na outra mão e de quando em quando o usava para enxugar os olhos. Ela sorria. O homem sorria, e sorria muito mais que ela.
 Ela ficou olhando para o homem e pensou que finalmente entendeu o brilho que se vê na cara de alguém quando esse alguém realmente está feliz, aquele brilho que mutos autores tentaram explicar com suas palavras, em vão. Ela nunca vira esse brilho antes. Por um instante pensou 'Talvez eu não conheça pessoas felizes assim...'.
Ao voltar sua atenção para a mulher, viu que embaixo do seu braço estava um envelope. O casal não desgrudava os olhos um do outro e os dedos não se separavam. Pouco tempo depois o homem pegou o envelope e disse: -Preciso ver mais uma vez. De dentro do papel ele tirou um ultrassom e começou a chorar, a sorrir e a soluçar ao mesmo tempo. A mulher apenas sorriu e ficou olhando.
-Vai ser pontepretano, amor. -disse o homem- Essas coisas passam de pai para filho, você sabe.
 À menção da palavra filho, a mulher deixou cair algumas lágrimas e eles voltaram e ficar quietos, desviando o olhar apenas quando a colher não achava o seu caminho para o pote de mousse de maracujá.
 A menina se levantou, pagou sua conta e foi embora, olhando para o casal até o momento em que o vidro acabava. É, talvez terças-feiras não fossem tão ruins assim.

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