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A impressão dada pela voz indignada da minha mãe ao telefone quando falei que eu iria para o Rio Grande do Sul foi a de maior descrença. Afinal, desde quando eu queria ir para o Rio Grande do Sul?
-Marcela, é praticamente outro país! É mais de mil quilômetros, você tem noção disso? Desde quando você quer isso?
Queria muito ter falado 'Desde agora, depois de uma conversa incrível com a única pessoa que não me olhou com um rosto de descrença enquanto o rosto de inclinava em sinal de superioridade quando disse que precisava ir para Pelotas até dia 31 de Janeiro'. Passar em décimo lugar em uma das cinco melhores faculdades de Engenharia Agrícola do país é um ótimo motivo, e esse foi um dos meus argumentos. Ela ter deixado eu ir para Florianópolis é outro motivo. Ela saber que ficar era minha última opção é um excelente motivo. Ela lembrar que sempre confiou em mim e nas minhas escolhas seria legal.
É, mas não disse nada.
No meu desespero de ver que o sistema na internet não funcionava seguido pelo angustiante telefonema de ajuda para minha mãe -que acabou com um belo 'Depois a gente conversa'- só me fizeram querer chorar, e foi isso que eu fiz.
'Tá bom.. tá, tá, tá.. tá bom. Eu sei, tá, caramba. .'
Puf.
Me joguei na cama e chorei, chorei.. chorei como não chorava desde a última vez que vi Minha Vida sem Mim.
Foi tudo muito rápido. Me dei conta que era uma incrível oportunidade, que queria ir pra lá e que ainda dava tempo. Liguei para a D. Elen. Descrença e um não disfarçado. Tristeza. Raiva. Angústia. Sabia que isso ia passar, mas naquela hora, queria mesmo era curtir a fossa de que não iria para onde, na verdade, sempre quis ir. Sempre achei que não haveria problema.. meus pais estavam tão ansiosos para eu passar em Florianópolis. O que são mais algumas centenas de quilômetros? Somos uma família que adora viajar e faz isso na primeira oportunidade que surge. Achei que seria um benefício para eles também. Aproveitei que ainda tenho dezessete anos e que chorar abraçando o travesseiro ainda não é visto como sinal de depressão, apenas como 'aborrescência', e fiquei lá.
E então parei.
Dezessete anos. Uma vida toda pela frente.
Esse sempre foi o meu argumento e o meu motivo para ser sossegada com vestibular, com carreira, e todo esse stress que nos fazem passar quando nem podemos dirigir ainda.
Hm.
Não iria para Pelotas agora, mas poxa, dezessete anos. Não pretendo morrer agora. Pretendo viver tempo o bastante para viajar para -pelo menos- metade dos lugares que quero. Posso encaixar o Rio Grande do Sul aí nesse roteiro. Posso ir trabalhar e morar lá uns tempos. Eu adoro soja, adoro chimarrão.. só o churrasco que recuso, estou tranquila no meu vegetarianismo.
Peguei o telefone, desci as escadas, passei pela minha irmã deitada no sofá e sentei em frente ao computador.
'Caramba, chorar no travesseiro?'
Que coisa ridícula..

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