I
Sentei-me à frente dele e respirei fundo. Ele olhava diretamente para mim e com o cigarro na boca enquanto ajeitava a almofada nas costas, disse:
-Um discurso, é.. Só.. vai falando.
-Começo por onde?
-Sei lá.. fala sobre seu ano.
Sentei-me à frente dele e respirei fundo. Ele olhava diretamente para mim e com o cigarro na boca enquanto ajeitava a almofada nas costas, disse:
-Um discurso, é.. Só.. vai falando.
-Começo por onde?
-Sei lá.. fala sobre seu ano.
-OK.
II
"Que ano estranho, que situações bizarras e emoções exacerbadas. Família, amigos, escola, futuro e passado de mais e presente de menos, decisões.. foi um ano complicado.
II
"Que ano estranho, que situações bizarras e emoções exacerbadas. Família, amigos, escola, futuro e passado de mais e presente de menos, decisões.. foi um ano complicado.
Começando na escola. Estava em um ambiente que não gostava, cheio de pessoas que não me faziam a menor diferença e eu tinha que tirar forças de vontade para estudar, encarar o épico vestibular e enfrentar a errônea analogia de ir para uma faculdade e ser alguém na vida. Critiquei o Anglo até não poder mais (e eu ainda sou contra ao seu método), discuti com a coordenadora que gosta muito de mim por não concordar com mais da metade das medidas que ela tomava. Comecei a questionar todo o sistema da minha escola, a analisar os professores e perceber que quase nenhum era professor de verdade. Pareciam mais guias do Anglo. Vi professores talentosos tendo seu talento escondido porque o cronograma não dava abertura. Muito obrigada Anglo, por todos os debates reprimidos, pensamentos e opiniões que tiveram que ser deixadas para depois e coisas mais pelo simples fato de que o que vale é ter a informação enfiada na sua cabeça em vez de aprendê-la.
E não posso me esquecer das picuinhas, as panelinhas. Caramba, isso me cansou. Nunca pensei que uma sala poderia ser tão dividida pelos motivos mais rídiculos que um adolescente já inventou. Se manter afastado disso era quase impossível e dei graças quando terminou.
E lógico, a viagem que fez tudo mudar. E depois me perguntam por que eu quero tanto mudar para Florianópolis.
Em outubro fizemos uma viagem de formatura super improvisada e de última hora que acabou dando mais certo do que a que planejaram ano passado. Eu nunca quis ir pra Porto Seguro. Pelo menos não na semana do saco cheio, com meus amigos e tudo mais. Talvez daqui uns anos, como turista mesmo. Não sei, simplesmente não faz meu perfil. Preferia ir pra Floripa, por que não? E fomos.
Em vários momentos eu pensei que a viagem não ia dar certo, que não ia dar o número mínimo de pessoas, que lá todos iam ficar divididos, porque nós sempre fomos divididos. Aí então numa noite de outubro eu entro nesse micro ônibus com esse pessoal animado pra caramba, com o professor de Física que acabou virando mais amigo do que professor e essas duas pessoas da agência que só melhoraram tudo.
Florianópolis foi um sucesso, a galera se uniu lá e assim permaneceu quando voltou. Sair toda semana não bastou. Tinha que ser quase todos os dias. Ficamos inseparáveis, quebramos antigos preconceitos e tudo mais. Um verdadeiro breakthru.
Aí começou aquela contagem regressiva-depressiva de aluno de terceiro ano do Ensino Médio. 'Poxa, já faz um mês que fomos pra Floripa' ; 'Nossa, daqui uma semana tem Fuvest' ;' É, daqui um mês é a formatura'.
Não sei quantas vezes chorei esse ano, quantas vezes me peguei olhando para o nada, quantas horas fiquei deitada na minha cama pensando e pensando e depois me sentindo culpada porque deveria estar estudando. Não sei quantas vezes pensei com quem continuarei conversando, saindo, tirando fotos ou quantas vezes agradeci por estar acabando, finalmente. Acho que chorei tanto ao longo do ano que na colação de grau que é bom, até que fiquei calma.
Ver as pessoas acreditando em você é a pior parte de prestar vestibular. Professores que diziam ver o potencial, amigos falando 'Ah, você vai passar..' , parentes fazendo aquela pressão básica com palavras do tipo 'Sempre acreditei em você' .. isso me estressou. Já não bastasse minha própria mente me atormentando, tinha todo esse mundo ao meu redor que só me fazia sentir mal. E se eu não quisesse fazer faculdade agora? E se eu estivesse tão perdida que não conseguisse escolher um curso qualquer para pelo menos tentar entrar? E se eu não passar?
Tantos jovens reclamando da falta de atenção dos pais, do sentimento de solidão que sentem e da falta de incentivo e eu aqui, protestando contra atenção de mais . Ridículo.. Agora, dia 27 de Dezembro de dois mil de dez me dei conta do meu pensamento egoísta e agradeço à todos que me incentivaram e me deram as palavras de ajuda. Só vou ver o resultado final ano que vem, mas mesmo assim, muito obrigada!
E bom, agradecimento especial à minha família. Nunca me forçaram a fazer o que não queria; simplesmente deixaram eu tomar minhas próprias decisões. 'Você quer prestar UFSC? Te levo pra lá!' . Obrigada mãe, por me levar para o sul para aquela maldita prova de três dias e por, de fato, me deixar ir para lá, longe de você e de tudo que eu conheço. Ainda mais com o parto de viagem que tivemos, com direito a carro parado na serra sem sinal e garganta inflamada.
Mas nada, nem mesmo minha família, teve tanto destaque esse ano quanto os meus amigos. Eles ocuparam boa parte do meu tempo, seja estudando em aula e fora dela, seja saindo para bater a nave e todas as consequências de fazer parte da galera mais louca que muita gente já viu. Sei que não vou manter contato com todos, mas acho que esse ano valeu a pena por muitos que estão por vir. Nunca conheci tantas pessoas especiais de uma vez só como em dois mil e dez. Nunca pensei no termo 'refazer uma amizade' e 'reciclar uma amizade'. Tive uma prévia de como poderá ser ano que vem e não foi agradável, mas foi suportável. Minha concepção sempre foi de que sim, eu posso viver sem você, sem você e sem você. Seria bem mais difícil, mas eu continuaria vivendo.
Entre os pequenos destaques eu poderia citar meu querido longboard Jerry Lee (não por causa do cachorro, mas pelo cantor!), os recém descobertos benefícios em uma amizade, as incontáveis viagens (sim, foram muitas), a tarde em que vimos o pôr-do-sol no Eliseu, a UPA, o FEAgri, o espetinho, o conceito de galere.. Muitas coisas.
E agora uma das coisas principais desse ano e que aconteceu dia 25 de Dezembro. Todos os meus Natais foram passados em Bariri, é a consequência por ser Rezende e será seu destino se você se casar com um. Aquela terra quente nunca me atraiu e para falar a verdade, nos últimos três anos a minha vontade era de passar o Natal em casa, no conforto da minha querida casa. Mas nem eu nem meus irmãos temos coragem de falar isso para meu pai. Parece que estamos traindo a família e família é algo muito valioso para o meu pai, mas muito mesmo.
E a verdade é que nso últimos anos, o Natal na casa da Tia Rita não é mais mesmo. Não dura até altas horas com alguém no violão, um primo filmando, outro contando piada, as mulheres conversando e fofocando, o amigo secreto completo e criativo e tudo mais. Ultimamente, o dia 24 de Dezembro anda morto. Parece que é obrigação estar lá. Parece que é para manter as aparências e não desonrar a tradição.
Então lá estou eu, as duas e pouco da madrugada sentada numa mesa com meu pai, que tinha deixado para comer só agora. Minha irmã se sentou do meu lado com cara de tédio. Em seguida meu tio avô (só agora parei pra pensar que ele é meu tio avô), se sentou e não me lembro porque, começou a contar histórias inclusive uma que explicava o seu discurso na revelação do seu amigo secreto, que esse ano foi meu pai. ("Uns anos atrás esse meu amigo secreto me procurou para um conselho -nisso meu pai ja largou a cerveja e falou para meu irmão 'Sou eu.'- e uma opinião. Ele estava indo para o exterior e queria saber o eu eu achava, se ele devia mesmo ir. Eu disse que sim, ele deveria ir e quando ele foi embora, fiquei atordoado e vi que quem falou com ele não tinha sido eu, mas outra pessoa que ele sabe bem quem é. Antes dele ir embora de vez, o chamei de novo para uma abraço. Nunca tinha sentido nada como aquilo.. outra pessoa falou com ele, não eu..." foi mais ou menos assim o discurso). Meu pai saiu de Borborema com dezessete, dezoito anos e foi morar com o tio. Ficou lá seis meses, se virou, e um tempo depois arrumou esse emprego na Jordânia pela Volkswagen. Até aí nenhuma novidade.
Voltando para anteontem: meu pai começa a dizer coisas sobre o como o tio tinha sido um pai para ele, o como ele sempre o ajudara, o quanto a figura dele era importante em sua vida e tudo mais. Falou da ausência do pai dele, meu avô, que morrera quando ele tinha quinze anos. Mas veja bem, meu pai não fala sobre meu avô. E o tio começou a contar essas histórias sobre ele, sobre o tio João, o Nenê (meu avô). Foi estranho, diferente.
O dia 25 então, nem se fala. Era como se fosse os anos noventa de novo..
(...)"
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