Pular para o conteúdo principal

Kerouac está em mim!

"Eram duas pessoas conversando ansiosamente, pareciam dois advogados que tinham pouco tempo para acabar com um processo, o processo do pensamento.
Sentaram-se um na frente do outro, cada um em sua cadeira de madeira, olhando nos olhos , gesticulando com as mãos, franzindo as sobrancelhas.. Conversavam sobre tudo, sobre a vida antes, sobre a vida agora. Não pensavam, porém no futuro, o futuro já não estava em suas mãos.
Cairiam na estrada mais uma vez, deixando que a estrada os levassem, esse era o único plano em suas vidas.
-Lembra de quando foi comprar aqueles cigarros, e veio aqueles dois caras atrás e no carro, a galere em pânico te gritando, GRITAANDO 'entra, entra, não olha pra trás? Puta lição de atenção, foi lindo aquilo, aquela emoção, não foi não.. lembra?..
Nem se importavam que eu estivesse ali, na cama, os observando nesse processo ansioso, excitado e louco. Provavelmente nem sabiam que eu estava ali, devo ter ficado para trás no começo dessa loucura toda.
-Sim, sim , siiiim! Nossa, e aquele sax que me seguiu por milhares de quilômetros.. não conseguia tirar aquele bip-bip nervoso da minha cabeça por nada desse mundo!
Ouvi muitos desses 'sins' animados.
Num determinado momento comecei a refletir no tipo de conexão que essas duas lindas pessoas tinham. Estavam nesse ritmo frenético de conversa há horas e não paravam nem para água. Ouvia nomes, músicas, honomatopeias, tudo.
Lembrei das tantas vezes que os chamei de loucos, de ansiosos, de vagabundos.. reparei que queria ser um vagabundo também. Conseguiam desvendar muitos mistérios da vida, ali, naquele ritmo um em frente ao outro e nem ligavam, queriam apenas era essa troca de ideia, esse reencontro de mentes.
Enquanto uma mente queria ser escritora, mas a vocação era conversar e a outra queria conversar com algúem como ela, mas o seu forte era escrever, duas mentes se encontraram no meio de uma estrada federal desse mundo e nunca mais se abandonaram. Percorriam centenas de quilômetros sem dizer uma palavra, mas quando sentavam em suas cadeiras de madeira, não havia terremoto que fosse mais alto que esses dois.
Então tão de repente como minhas reflexões, comecei a chorar de emoção ao ver esse encontro tão incomum. Tanta gente perde tempo tentando definir suas vidas que nem sabe que definição é limite. Análise, definição, rótulo.. tudo perca de tempo.
O que valia mesmo era esse tesouro que estava bem à minha frente: a comunicação livre e a liberdade de pensamento de dois malucos que só queriam mesmo eram viver, sem limites nem nada.
Se levantaram num silêncio, que para a situação, era descomunal, enxuguei minhas lágrimas emocionadas e recebi dois tapinhas nas costas de agradecimento.
Eram duas pessoas saindo pela porta do meu quarto caindo na vida, ou seja, na estrada e em silêncio absoluto. Sem mais freneticidade por hoje.
Nunca me senti tão sozinho. "

Comentários